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Friday, December 7, 2012

A (pouco) nobre arte de fazer de "Polícia"

"Estou de olho em ti, sacaninha". Yeah, right...tens cá uma sorte!

 Se houve sábia máxima que assimilei desde muito nova foi uma que o papá me ensinou: "o amor é como uma bolinha de mercúrio. Se o tentares agarrar, ele salta; se o segurares com a mão aberta, ele mantém-se". Também a avó me martelou sempre a boa e velha "aquilo que tem de ser nosso à nossa mão vem parar, não vale a pena uma pessoa infernizar-se por causa disso". Quem recebe carinho em casa, e está habituado a ser apreciado e valorizado, desenvolve inevitavelmente um sentido de amor próprio, tranquilidade e auto estima que não lhe permite depositar toda a sua alegria, felicidade futura ou noção do "eu" nas mãos de outrem. 

Por isso sempre estranhei quando via amigas minhas, naquela fase complicada da adolescência, deixar-se pisar, amesquinhar, sujeitar-se a coisas que as contrariavam e fingir gostar disto ou daquilo (mesmo de coisas desaconselháveis) em nome da popularidade, para andarem com o grupo X ou Y ou para que determinado rapaz gostasse delas. Nunca vi esse tipo de pressão como "amor" ou "amizade" e em mais do que uma ocasião, preferi estar menos acompanhada do que em tais companhias. Invariavelmente, o caso dava para o torto e provava-se que não havia nada a ganhar em sacrificar a dignidade e o respeito próprio no altar dos fretes em nome de um parvalhão qualquer (que nunca agradecia os sacrifícios) ou de "amigos" para quem todos os "pagens" eram substituíveis. Sendo este tipo de "vénias" um comportamento típico de teenagers com personalidade em vias de formação, poderíamos pensar que desaparecessem com a chegada da maioridade. Não é o caso - quem é capaz de se rebaixar, fá-lo pela vida fora: por necessidade, ambição, conveniência, baixa auto estima e/ou por um hábito infeliz e abjecto de fazer de cachorrinho ("estou aqui para ti! não me importo com os teus pontapés! leva-me contigo! convida-me! ama-me! ama-me!").  Este comportamento disparatado é especialmente visível nas relações amorosas. As mulheres caem muito nisso, mas vejo homens a fazer o mesmo: apaixonam-se por alguém em que não confiam (ou que não é mesmo digno de confiança) e depois vivem com a alma num susto, no constante terror de perder aquela grande coisa, como se tivessem " o Rei preso por uma perna". Morrem de ciúmes e o seu passatempo é "fazer de polícia" ou seja, seguir passivamente - e de cara alegre, por mais que doa - todos os passos do (a) parceiro (a) para garantir que nada escapa ao seu controlo. Vulgo, as meninas que pensam "eu odeio futebol e até estou com 40 graus de febre, mas se deixo Paulo ir sozinho com os amigos, está lá aquela cheerleader que passa a vida a atirar-se a ele. Não vou dar esse prazer àquela galdéria!" ou "tenho uma perna partida e a festa onde o Pedro vai é uma seca monumental, mas ele fez questão de convidar a Lili, a Milu e a Lulu, que andam sempre atrás dele...ná, ná, a coisa está preta; se ele se apanha à vontade foge com uma delas...ah, não, eu vou; e palavra de honra que se abusam, as espanco com a muleta!O meu homem ninguém tasca nem tira" ou ainda "a Mariazinha foi sair com as amigas, mas vou aparecer por lá como quem não quer a coisa para ver se ela se está a portar bem".  Newsflash, minha gente, não há cá "meu" nem "minha". Primeiro que nada, essa é uma expressão detestável; segundo, não existem títulos de propriedade para essas coisas. As pessoas, mesmo quando estão comprometidas, são donas dos seus actos. E sempre ouvi dizer, quem quer "portar-se mal" arranja maneira, nem que esteja acorrentado (a) à cara metade ou trancado (a) a sete chaves. É impossível controlar alguém vinte e quatro horas por dia. Quem quer "andar à vontade" arranja um ardil, nem que lhe tenham incorporado um GPS. Um (a) namorado (a) que obriga a esforços titânicos de vigilância não tem remédio: a única coisa a fazer é partir para outra, ir à sua vida, empregar energias em algo mais construtivo, libertá-lo (a) de quaisquer amarras, compromissos ou encargos: deixá-lo (a) estar livre, à solta e à sua vontade, para errar, para fazer as asneiras que bem entender, para dar as suas cabeçadas, a que tem tanto direito como todos nós. O mesmo vale para as amizades: cansar-se a dizer a um amigo ou amiga teimosos "não te metas nisso, não vás por aí, olha que te vais arrepender" é esforço baldado.
Quem deseja realmente estar connosco faz por isso, sem perder a sua individualidade; quer a nossa companhia acima de qualquer outra coisa, sem esforço, por livre e espontânea vontade; não encoraja situações constrangedoras de competição; não arrelia deliberadamente a pessoa de quem gosta; não flirta ou dá troco a flirts deliberadamente; quando é alvo de assédio, procura pôr fim à situação e tranquilizar a pessoa com quem está. Tem tudo a ver com respeito, lealdade, vontade firme, amor mútuo e com não haver alguém "que ama mais" ou "que se esforça mais" para manter algo que devia ser espontâneo. Em relações saudáveis, essas questões não se colocam sequer. Um ciúme normal existe sempre - e até "apimenta" -  mas as pessoas que valem a pena podem estar na China sem que o parceiro se preocupe, porque sabe o que os dois têm e a confiança é um dado adquirido. Problemas podem acontecer, ninguém é perfeito, mas quando se tem uma pessoa madura e segura de si ao lado, "o Diabo não está sempre atrás da porta". Quem gosta de "fazer de polícia" mais vale candidatar-se a uma carreira nas forças de segurança, ou voluntariar-se para vigilante do bairro: sempre dá um uso mais nobre aos seus dotes. 




6 comments:

Colour my life said...

Que belo texto, Sissi. É sempre resfrescante vir aqui ler alguma sensatez e algum sentido de "saber estar".

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada ;)
De facto, as pessoas precisam de relaxar. Por vezes nem observam o que fazem, andam demasiado enredadas nas competições que permitem na sua vida. É preciso parar e observar...

Paulo Abreu e Lima said...

Gostei especialmente da bolinha de mercúrio... Num mundo perfeito e, principalmente, escrupuloso, as coisas seriam assim. Mas mesmo nesse, há pessoas tragicamente assediadas, alvos de ardis extremamente complexos e muito bem montados. Aí, apela-se à compreensão da cara metade e, quantas vezes, ao seu arcaboiço. Muitas vezes é muito difícil ser parceiro de certas pessoas. E não por elas, mas pelos outros. De qualquer forma, excelente reflexão, Imperatriz :)

Imperatriz Sissi said...

Caro Paulo,

adorei o comentário, que merece uma detalhada e serena análise.

Muito obrigada.

Isto e aquilo said...

Também gostei muito do texto, Sissi! E é verdade que é preciso relaxar, porque, como diz,"quem deseja realmente estar connosco, faz por isso" ;)

Mar said...

Isto é TÃO certo, mas se saio por aí a dizer isso a alguém a resposta de muita gente é um encolher de ombros, ou um "isso comigo não dá", acompanhado muitas vezes por pensamentos transparentes de "daqui a bocado ele encorna-te e depois vemos quem tinha razão" (pardon my french). Por amor dos deuses, gente, tenhamos decoro, se alguém quer trair outro alguém então é porque não o/a merece. Fim da história. E quem não me merece pode sair porque, como dizia o outro, "a porta da rua é a serventia da casa".
Excelente post, Sissi. PREACH, SISTER! *stand up ovation*

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