Salma Hayek (envergando um Dirndl na TV Alemã) e Karl Lagerfeld
A Alemanha é um país de muitos encantos. Por isso não deve, na minha opinião (que vale o que vale)estragar tudo procurando comandar os destinos da Europa.
Poucos povos encerram tantas contradições como o alemão. São grandes músicos e artistas, grandes doceiros, grandes farristas, excelentes fabricantes de automóveis, fantásticos designers de moda, fazem os enfeites de Natal mais fofos que há. Apresentam mesmo uma tendência para o kitsch e o excesso. E por outro lado têm dos índices de suicídio estudantil mais elevados do mundo, são altamente competitivos, disciplinados ao ponto de ser uma doença - note-se que sou pela disciplina, mas tudo tem limites - belicistas e sempre mortinhos para conquistar território alheio. Parece que não resistem. Quando lhe dão asas, o alemão invade, manda e desmanda.
A nossa casa sempre foi frequentada por amigos estrangeiros, por isso tomei contacto com alemães bastante cedo. Nessa idade não percebia patavina do que me diziam, com excepção do " Möchten Sie eine Schokolade?". Essa frase ouvia-a todos os anos a um simpático casal de meia idade que passava férias junto de nós. Eu era um pisco para comer, mas fascinavam-me os bonitos doces que me traziam com um sorriso gaiato.
Por influência de amizades destas, ou porque sempre foi um admirador dos povos tenazes e ordeiros, o senhor pai determinou logo que além do inglês (língua oficial lá de casa) eu havia de falar alemão. Protestei, porque se agora faço justiça ao idioma, que considero do mais majestoso que há, então achava-o um conjunto de roncos e rujidos. Que antes queria francês. Pois sim!
Lá marchou a pequena Sissi para um instituto alemão, logo a seguir à queda do Muro de Berlim. Não achei grande piada às aulas, porque todas as explicações eram dadas em alemão, mesmo a dificílima gramática. A ideia, creio, era que fôssemos "entranhando" o idioma à força - o que passava por conhecer as deliciosas tradições alemãs, cantar em alemão, e por aí vai. Mais tarde, teria alemão no conservatório e no liceu, mas nunca me habituei a usá-lo tanto como gostaria - o mesmo sucedeu com o francês e o italiano, que estão guardados " para ocasiões".
Mas a minha opinião sobre o povo germânico ficou traçada em plena guerra dos Balcãs, quando eu era uma tween impressionável. Indo nós a caminho de Zagreb, fazemos uma inesperada escala em Frankfurt. Ameaça de bomba no nosso avião, viemos a saber mais tarde, porque ninguém se deu à maçada de nos explicar. Homens, mulheres, velhinhos e crianças, tudo empurrado para um perímetro de segurança. Uma vergonhaça que durou duas ou três horas, bebés aos gritos, tudo sem poder ir à casa de banho, guardados por meia dúzia de polícias armados até aos dentes e com metralhadoras apontadas a nós. Já irritada com aquilo, e a mamã a insistir que eu desse uso às lições e perguntasse aos homens ( os exemplares mais altos, e perfeitos que vi até hoje, verdadeiras esculturas, com uns uniformes de morrer; digam o que dissserem, os marotos percebem mesmo de fardas) que palhaçada era aquela.
Lá vou eu, cá de baixo a exigir explicações, a ignorar ostensivamente a G-3 (ou prima) apontada a mim. Contrafeito, mas desarmado (salvo seja) pela minha lata, resmordeu lá de cima o herói "é qualquer coisa com a bagagem".
Para mim ficaram apresentados; gosto muito deles, mas dar-lhes autoridade é má ideia. E quando Frau Merkel fala em coisas como pôr a meia haste as bandeiras dos países incumpridores, revejo logo aquela cena à lista de Schindler. Por outro lado, uma senhora que confunde um vestido de cerimónia com um
Dirndl* e se apresenta em público com decotes monstruosos, é capaz de não ser bom cartão de visita para um povo inteiro.
*vestido tradicional da Bavaria, Liechtenstein, Austria eTirol








