De todas as mulheres célebres que admiro, Leonor de Aquitânia é talvez a mais completa. O exemplo de que se pode ter tudo, ser tão poderosa como um homem sem cair nos exageros do feminismo. E a prova de que a Idade Média não foi tão obscura e pouco divertida como muitas vezes os compêndios nos querem fazer crer. Sucessora de Guilherme X, o Santo, e neta de Guilherme IX, O Trovador, aos quinze anos era o melhor partido da Europa. Da mais nobre linhagem, riquíssima e deslumbrante, recebeu uma educação esmerada (algo pouco comum mesmo entre os herdeiros varões do seu tempo) e era fluente em oito línguas. Cresceu na corte mais animada e culta da época, onde imperavam a moda, a beleza, a música, a poesia e um estilo de vida refinado. Uma verdadeira it girl medieval, com a vantagem (ou maldição) de uma personalidade voluntariosa, de acentuada sensualidade.
Como destinado, casou com o jovem Luís VII de França. Aliança condenada à partida, já que o marido tinha crescido numa corte austera (que Leonor tratou de modificar rapidamente) e era um rapaz tímido, incapaz de se impôr à mulher. Foi Leonor que o estimulou a participar nas Cruzadas, que tratou de todas as diligências necessárias. E partiu à aventura, não enquanto Rainha consorte mas em pé de igualdade, como líder feudal de pleno direito e comandando o seu próprio exército - não se consegue ser mais cool do que isto - de tal modo que as notícias do seu comportamento escandalizaram o Papa.
Em Antióquia começaram as divergências. Deslumbrada pelo esplendor oriental, sentindo-se livre em horizontes mais largos,
Leonor reencontrou uma alma irmã, um homem feito da mesma fibra e do mesmo sangue: o seu tio, o príncipe Raimundo de Poitiers...e alegadamente, o seu antigo apaixonado. Raimundo era um aventureiro, guerreiro exímio e o príncipe mais belo da Cristandade. Grande, alto, louro, poderoso, cheio de vida. As faíscas saltaram e os mexericos também. Luís acusou a mulher da Fórmula Queirosiana: incestozinho e adulteriozinho. Desentenderam-se quanto aos objectivos da Cruzada e a união não duraria muito mais: foi anulada em 1152 por alegada consaguinidade. Leonor recuperou a liberdade e os seus territórios foram retirados da coroa francesa. Semanas mais tarde, uniu-se a com certo escândalo ao Conde de Anjou, futuro Henrique II de Inglaterra. Uma relação com final infeliz e rumores de infidelidade de parte a parte, mas da qual resultariam Ricardo, Coração de Leão, e boas razões para a Guerra dos 100 anos.
Leonor viveu inúmeras peripécias até à velhice, sempre igual a si própria. A Rainha que partiu em cruzada. Amante de lenda. E autora de um livro sobre o amor cortês. Melhor é impossível.