O desastre do R.M.S Titanic assombrou-me desde pequena devido à sua aura de navio fantasma, ao ambiente glamouroso, à época em que sucedeu (uma das minhas favoritas) ao mistério que rodeou a tragédia e sobretudo, aos milhares de dramas humanos entrelaçados - histórias cujos detalhes continuam a ser descobertos 100 anos depois. Devorava todos os livros, documentários e revistas que encontrava sobre o assunto (embora nunca me tivesse tornado numa especialista ou coisa semelhante). Principalmente se tivessem retratos. Os rostos de pessoas tão diferentes, que viajavam nas circunstâncias mais diversas e que reagiram à adversidade de formas distintas - muitas demonstrando uma coragem e cavalheirismo que hoje seriam impossíveis - fascinavam-me.
Continua a comover-me a cena de Ghostbusters - que pretendia ser cómica - em que o Titanic finalmente alcança Nova Iorque. Por ter marcado a minha infância mas principalmente porque nada me atinge tanto como os momentos congelados no tempo, as coisas que ficaram por fazer, aquilo que nunca chega.
Os "mitos urbanos" à volta do naufrágio (muitos causados à época, devido à falta de informação nos primeiros dias, a mal entendidos e à imaginação de alguns jornalistas) são imensos. No entanto, é inegável que estranhas coincidências pareciam prever um destino funesto para o navio mais sofisticado do seu tempo. Estas são apenas algumas:
- Leontine Aubart, mais conhecida por "Ninette" e amante do milionário Benjamin Guggenheim, recebeu a visita de uma amiga. Entusiasmada com o seu guarda chuva novo, Ninette abriu-o de imediato para lho mostrar. A amiga fez-se pálida e voltando-se para Emma Sägesser, criada de quarto de Mlle. Aubard, exclamou: "Sinto que vai haver uma desgraça. Por favor, tome bem conta da sua patroa".
| Benjamin Guggenheim |
Pouco tempo depois, Emma e Ninette embarcavam no Titanic com Mr. Benjamin Guggenheim - e uma bagagem impressionante que contava 5 baús, um deles só para lingerie, no valor de mais de 12 000 dólares. Ambas sobreviveram, mas ele fez questão de enfrentar a morte "vestido como um cavalheiro". Sentou-se com Giglio, o seu valete, a beber whiskey e a fumar charutos como se nada estivesse a acontecer. " Nenhuma mulher há-de ficar a bordo por Ben Guggenheim se comportar como um cobarde" foram as últimas palavras que lhe ouviram.
- Ao contrário do que era costume, não se terá quebrado uma garrafa de champagne na inauguração do Titanic - um lapso tido como aziago. Ao que parece, tão pouco se respeitou a tradição de transportar gatos no navio - usados para afastar os ratos, mas também para trazer boa sorte. Não havia um único felino a bordo. No entanto, dois cães escaparam ilesos. A ser verdade, é espantoso como marinheiros (as pessoas mais supersticiosas do mundo) podem ter deixado escapar esses detalhes. Porém, há que observar que nesta época, tendia a acreditar-se menos em mitos e a confiar na ciência. Poderá ter-se feito fé na boa construção do Titanic. Depois do naufrágio, muitas ideias, crenças e procedimentos de segurança no mar foram reconsiderados...
| Memorial em Cobh (antiga Queenstown, uma das escalas do Titanic) |
- Em 1898, o autor americano Morgan Roberton escreveu o romance "Futility". Neste, o navio "Titan" cruzava o Atlântico em Abril, embatia num icebergue e não tinha botes suficientes para todos os passageiros, resultando numa perda enorme de vidas. Segundo o próprio, o autor era médium e recebia inspiração de "amigos astrais". Curiosamente, o livro estaria disponível numa das bibliotecas a bordo do Titanic. (Isto é o que eu chamo coincidência, bad juju e mau feng shui, tudo junto...).
- Em 1874, Celia Thaxter publicou um livro de poesia. Um dos seus textos, "A Tryst" descrevia o acidente que teria lugar 38 anos depois com impressionante detalhe.
- Mais estranha ainda é a história do espiritualista, escritor e repórter sensacionalista William T. Stead. Cerca de 20 anos antes, Stead publicara dois contos que descreviam o naufrágio de navios em circunstâncias muito semelhantes às do Titanic: num deles, a bordo do navio Majestic, precisamente da White Star Line (a mesma companhia do Titanic)uma médium é avisada por dois fantasmas do perigo de icebergue. O outro conto terminava em tragédia, com um aviso: " isto é exactamente o que vai acontecer se os navios forem enviados para o mar com botes salva vidas insuficientes". Ironia das ironias, o autor morreu a bordo do Titanic.
| Mary Farquarson e Daniel Marvin, de 19 anos |
Quando o filme de James Cameron foi anunciado entusiasmei-me, como me entusiasmo sempre que um tema preferido é levado às telas. Como é de imaginar, foi sol de pouca dura. O excelente figurino e a atenção ao detalhe não compensaram a titanicmania que se gerou, a histeria das adolescentes pelo Leonardo DiCaprio e a história de amor inverosímil, sem pés nem cabeça para o meu cérebro ainda em formação, mas já sem paciência para foleiradas.
Não acreditava que alguém, de mais a mais naquela época, deixasse um noivo como Billy Zane para fugir com o amor da sua vida, por quem se apaixonou em três dias. Mas divago. A verdade é que houve histórias de amor a bordo do Titanic, não menos trágicas e romanescas.
Não acreditava que alguém, de mais a mais naquela época, deixasse um noivo como Billy Zane para fugir com o amor da sua vida, por quem se apaixonou em três dias. Mas divago. A verdade é que houve histórias de amor a bordo do Titanic, não menos trágicas e romanescas.
Oficialmente, 13 casais embarcaram no "navio inafundável" em Lua de Mel, 9 dos quais em 1ª Classe. Apenas dois sobreviveram juntos. Metade dos jovens maridos pereceram no naufrágio.
Daniel Marvin (filho do fundador da empresa cinematográfica pioneira American Mutoscope) de 19 anos, embarcou na 1ª Classe do Titanic com a sua jovem mulher, Mary Graham Carmichael Farquarson, de 19 anos, de regresso aos Estados Unidos após a viagem de núpcias à Europa. Na noite da tragédia, colocou Mary (que esperava uma criança) no bote nº 10, dizendo-lhe : It´s allright, little girl. You go. I´ll stay. O seu corpo nunca foi encontrado. Em Novembro de 1912 nasceria a filha de ambos, Margaret.
| Lápide simbólica de John e Elizabeth Chapman. |
Adolf Dycker viajava com a sua esposa, Anna Lovisa, em 3ª Classe. Regressavam da Suécia aos EUA, onde estavam a construir uma casa. Tal como Daniel, colocou a amada a salvo, beijou-a e afastou-se para morrer. Adolf tinha apenas 23 anos.
| Victor e Maria |
Após uma lua de mel que durou 17 meses, os jovens espanhóis Victor (sobrinho do primeiro-ministro de Afonso XIII, José Canalejas) e Maria Josefa Peñasco y Castellana (de 24 e 22 anos respectivamente) decidiram à ultima hora embarcar no Titanic. Tinha sido uma viagem extravagante, a condizer com o lifestyle da Belle Époque e com a fortuna de ambos - que combinadas equivaleriam hoje a cerca de mil milhões de euros.
Não faltaram mesmo, entre outras joias adquiridas neste passeio, um opulento colar com três voltas de pérolas e um alfinete com as mais raras gemas da época - que acabariam no fundo do Atlântico. A mãe de Victor tivera um pressentimento que levou os pais dos dois a proibi-los de viajar por mar. O casal conseguiu iludir a vigilância deixando em Paris o seu valete, Eulogio, encarregado de enviar regularmente postais para casa como se Victor e Josefa ainda estivessem na cidade Luz - e embarcou acompanhado apenas da criada de quarto, a senhora Fermina Oliva. A desobediência teria um preço demasiado alto. Curiosamente, apesar de se terem deparado em Paris com tentadora publicidade ao Titanic, os jovens pretendiam inicialmente viajar noutro navio, que partia mais cedo. Infelizmente, os bilhetes estavam esgotados: escolheram o Titanic. Quando se deu o desastre, Victor apressou-se a colocar a esposa e Fermina num bote. Ia subir também, mas cedeu o lugar a uma mulher com uma criança de colo. Josefa não voltaria a vê-lo.
A Condessa de Rothes, sobrevivente que conviveu com o casal, relatou como este parecia apaixonado e feliz, captando a simpatia dos companheiros de viagem. Foi ela que confortou a jovem viúva a bordo do bote nº 8 - uma vez que esta estava inconsolável, não parando de chorar e chamar pelo marido - distraindo-a para que ela não ouvisse os gritos das vítimas, o horroroso som do Titanic a afundar-se. Um ruído descrito por vários passageiros como "uma montanha a desabar" e "um gigante e horrendo uivo humano em uníssono".
Pessoalmente, este é o instante que mais me arrepia.


