| Catherine Zeta Jones e Michael Douglas com os filhos, Dylan and Carys Douglas, no Palácio de Buckingham: um amor! |
Pelos vistos, na velha Albion - pátria da rigorosíssima e temível educação à inglesa, com água fria e bordoada- os fundamentalismos do politicamente correcto também já se instalaram. E por cá, não se pode tocar no assunto que não venha o chavão "quando tiveres os teus vais ver!" ou a ameaça "era o que faltava, alguém avisar os MEUS filhos" que servem para tudo, principalmente para dar largas à má criação dos pais.
Pela parte que me toca, duvido que "vá ver" se tiver filhos, por um motivo muito simples: os meus pais eram bastante jovens quando nasci. Com 28 anos já me tinham a mim e ao meu caro irmão ( cada um uma peste no seu próprio estilo) e responsabilidades que ainda não me passam pela ideia. Ambos fomos extremamente mimados: em afecto, em brinquedos e outros bens materiais, na relação próxima e espontânea com pais e avós, na autonomia para desenvolver e expressar ideias. Gostávamos de conversar com os adultos e era-nos permitida uma liberdade nas brincadeiras que vejo muito pouco hoje em dia. O que não tem nada a ver com indisciplina e atrevimento, coisas que pura e simplesmente não eram toleradas - ponto final. Lá em casa sempre se acreditou que as crianças não são idiotas, logo, não devem ser tratadas como tal com a desculpa "são miúdos".
Na minha família, as regras eram as velhas: as crianças são para ser vistas, não ouvidas. Uma criança fala se os adultos se lhe dirigirem. A partir do momento em que é capaz de articular as palavras correctamente, acabou-se a fala à bebé. Deve ser amável e responder quando lhe perguntam, em vez de fugir com o dedo na boca como uma parvinha. Acanhamento ou ousadia em excesso devem ser corrigidos. Os avisos e pedidos são feitos em privado. Dá-se prioridade aos adultos e às pessoas de idade. Não se permitem queixinhas nem amuos. Não se aponta nem se fazem perguntas embaraçosas. Não se corre em locais públicos, não se salta para cima das pessoas. Em casa dos outros, não se pedem coisas nem se mexe em nada. Uma criança que já se expressa, mesmo que seja pequenina, tem de dizer " por favor", "dá-me licença?", "não se importa?", "posso?", "muito obrigada", "faça o favor", "desculpe", "muito prazer" e "não, obrigada". O ser humano precisa de ser educado para não incomodar os outros e isso só funciona começando de pequeno.
Quer isto dizer que nunca fizemos birras? Claro que não. Podemos minimizá-las mas evitá-las de todo é impossível, embora haja crianças mais atreitas a isso do que outras. Ou porque está cansado, ou com fome, ou com sono, ou doente, acontece. O que se pode - e deve fazer - é minimizar a possibilidade de explosões em público e em caso de calamidade à vista, resolver a questão discretamente .
Ignorar uma birra pode funcionar - mas é uma estratégia a adoptar em casa, onde a gritaria não incomoda estranhos. E já não falo de ralhos in situ, que são um atentado à dignidade. Há que distinguir a educação de uma criança, que é um assunto relativamente privado, do saber estar em público. Nesse caso já não está em causa a boa ou má criação da criança, mas a dos pais. A única coisa civilizada a fazer é afastar o diabinho e tranquilizá-lo (recorrendo a um sermão, um abraço, uma ameaça de castigo, uma conversa ou um açoite discreto, consoante o caso). Só então se regressa para junto das outras pessoas.
Sou da opinião que há certas reuniões sociais, ou certos locais, em determinados horários, que não devem ser frequentados por crianças, que se aborrecem ou cansam facilmente. Não percebo pais que levam bebés para jantaradas de três horas e perante uma birra quase inevitável ficam surpreendidos, dão -se ao luxo de a ignorar e ainda esperam que pessoas que pagaram bem para ali estar não se sintam incomodadas, ou achem graça ao pobre anjinho. É constrangedor para quem assiste e desconfortável para o pequeno. (Já me aconteceu assistir a situações dessas e pedi pura e simplesmente ao responsável que me arranjasse outra mesa, a bem dos meus tímpanos).
A introdução social de uma criança deve ser gradual. Havia festas e jantares a que não íamos, principalmente se não havia outras crianças presentes. Em nossa casa, nas ocasiões especiais, muitas vezes armava-se uma mesinha em miniatura (numa saleta à parte, ou ao lado da mesa dos adultos) para que recebêssemos os nossos próprios convidados sem chatear os crescidos. Eu sentia-me muito grande e importante com isto.
Para as vezes que jantávamos com os adultos (a não ser em situações de maior formalidade) fomos treinados para pedir licença para nos retirarmos logo que acabássemos a refeição. Nunca saíamos da mesa sem pedir autorização educadamente, mas também não éramos obrigados a estar feitos estátuas e em modo-birra-em-curso. Nas vezes em que as birras aconteceram mesmo (recordo-me de uma vez, tinha eu três anos, que embirrei que queria um estojo de desenho profissional que vi na papelaria, e de outra em férias, com 9 meses, em que foi preciso levarem-me para fora do restaurante) o remédio era esconder-nos, por muito incómodo que isso representasse. Por vezes deixava-se de tomar a refeição em paz, ou de aproveitar a festa, para que os restantes presentes - que não são responsáveis pelos filhos dos outros - o pudessem fazer, como tinham direito.
E se eu me portasse mesmo mal, estou certa que como pessoas razoáveis, os meus familiares não iam ficar ofendidos se alguém me avisasse, desde que educadamente. Um shut the f*** up! nem pensar, mas um "vamos lá a acabar com isso" era decerto muito bem vindo. Haja humildade e empatia para com os outros, que uma pessoa não se torna um ente sobre humano só porque pôs crianças no mundo. Que mania.



