Recomenda-se:

Netscope

Saturday, January 5, 2013

A baixa cotação da Bondade

                                 
Não sei se já repararam nisto, mas a Bondade está démodé. Nos nossos dias, não é uma qualidade citada como importante, desejável, ou que provoque inveja a alguém. Antes pelo contrário: ninguém aspira (oficialmente, pelo menos)  a ser bom. Hoje quer-se o homem ou mulher de sucesso - beleza, inteligência, riqueza, sensualidade, estilo, invencibilidade, são as qualidades a adquirir a todo o custo.
 Características que antigamente faziam par com tudo isto em certos heróis ou heroínas de romance - honra, nobreza, bondade - são descartadas. O "bonzinho" de hoje é, aos olhos do público, três coisas: choné, parvo ou hipócrita, com alguma na manga, porque este é um mundo cão e só quem anda cego pode ser bom. 

 Não podemos negar a máxima Evil is cool. Os vilões ou anti heróis com auto confiança infinita, uma certa dose de suave malvadez e grande poder pessoal são muito apelativos e mais interessantes do que personagens fofinhas e bidimensionais - porque afinal, estão mais próximos de nós. Ninguém é perfeito. 

    Mas em exagero, tudo é mau - e o cinismo instalou-se de tal maneira que já ninguém é apresentado como "bom" sem que isso suscite desconfiança. Ninguém é imitado ou admirado por ser bom. Até nos contos de fadas, que expressavam as qualidades a copiar, hoje as princesas deixaram de ser boazinhas - são valentes, aguerridas, desbocadas, modernaças, mas Deus nos livre que se perceba que são "boazinhas" apesar de estarem indubitavelmente do lado do "bem"... ou da razão, vá.  Alguma versão de um conto começa, nos dias que correm, por " era uma vez uma princesa muito bela e bondosa?". Não. Deus nos livre.

 Até o conto de fadas mais clássico vem tingido, actualmente, de piadas à Shrek, revestido de ironia. D. Nuno Álvares Pereira, Amadis de Gaula, S. Miguel Arcanjo, Joana D´Arc - só para citar alguns heróis/santos/guerreiros que conjugaram valentia com bondade - não teriam qualquer hipótese no panorama cultural de hoje.

 É certo que cada vez mais se compreende - e se procura demonstrar, numa perspectiva realista, menos idealizada - que pode haver *algumas* áreas cinzentas (ou dois lados da situação)  quando se fala no "Bem" e no "Mal". E para se ser boazinha não tem de se ser, necessariamente, ingénua ou pateta alegre.

 Mas descartar a Bondade enquanto qualidade humana, catalisadora de uma certa aura, parece-me demasiado - e impede as pessoas de meditar nela, de reparar nela, de aspirar a ela. Numa sociedade cada vez mais veloz, cada vez mais distraída, cada vez mais voltada para o individualismo, isso não me parece boa ideia. A bondade, como qualquer dom, precisa de ser exercitada, cultivada, posta em prática.  Se for esquecida...não será usada. A bondade é camuflada com eufemismos: "boa pessoa", "simpático", "solidário", " amigo da ecologia" (algo muito em voga, de forma assaz redutora e postiça) " responsabilidade social" (associada, na mente do público, a uma troca de interesses). Bondade parece um palavrão. Em termos de Relações Públicas, é péssimo. E isso é desastroso, pois é do exercício da bondade que nascem a sensibilidade e a empatia. O pior é que sem empatia, sem a capacidade de se colocar no lugar do outro, a sociedade 
torna-se uma selva. Não se pretende uma bondade seráfica, palerminha, ascética, impossível. A bondade de um Cavaleiro Templário (sou muito bom, muito bom, mas se me fazes mal vai tudo raso) serve perfeitamente. Mas se fazem favor, devolvam-nos a Bondade. Faz muita falta.

3 comments:

raika said...

belo desabafo, que representa o que se passa nos dias de hoje. Temos vergonha de ser bons, de nos tomarem por parvos e nos tentem pisar

Tamborim Zim said...

Tão pertinente, um libelo! A bondade deve inspirar a justiça e é, antes de mais, o exercício do bem. E é por isso q está demodé. E na prática sempre esteve. Temos de lembrar-nos do poder e da necessidade, nas palavras de Ginsberg da "extra-brihante bondade da alma".

Carla said...

Na sociedade em que hoje vivemos ser bondoso, generoso, educado é sinónimo de "tótó"! Infelizmente cheguei a essa triste conclusão.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...