Recomenda-se:

Netscope

Saturday, January 19, 2013

A tempestade: post escrito sem luz



J.W. Waterhouse, Miranda (The Tempest)


Sem electricidade desde ontem à noite. Foi esse o resultado da tempestade que só amainou um pouco à hora do almoço. Como aqui em casa é praticamente tudo eléctrico, estores incluídos, e como nós, pessoas de juízo, fechámos as janelas antes de começar a borrasca, a recompensa foi andar de lanterna dentro de casa pois era impossível abrir as persianas. O Farinelli e o Chiquinho fugiram para a rua na parte pior, como se as gatas andassem na rua com um tempo daqueles. E tivemos de aquecer café num fogão portátil, o que também foi giro. Felizmente tínhamos água quente graças ao acumulador, mas acordar de manhã com umas trevas danadas e um silêncio só cortado pelo assobiar do vento (nem vizinhos, nem sirenes, nem vivalma) abrir a porta da varanda para conseguir ver alguma coisa e deparar-me com as varandas de pantanas, coisas a voar perto da nossa cabeça, árvores a partir e a cair não foi nada agradável. Não sei se já ouviram o som de uma bela, alta e saudável árvore a rasgar e a quebrar - é um ruído assustador e doloroso. Nestas alturas sentimo-nos mesmo pequenos - nada funciona e vemos como a nossa grande e moderna civilização assenta em alicerces e cadeias tão frágeis, que nada podem contra uma tempestade que felizmente, não está a ser tão má como aparentava. Sem modem, telemóveis quase sem bateria porque não contávamos com essa, podia a coisa ser grave que não saberíamos de nada. Da EDP ninguém me atendia, do 117 também não, parecia-me coisa de pouca monta para ligar para a Protecção Civil ou Bombeiros mas foi mesmo de lá que acabaram por me descansar um pouco. 

*Começo a inventar um enredo de filme de acção de série B: homem do piquete de electricidade valente e sem nada a perder porque a mulher o deixou arrisca a vida para devolver a electricidade à freguesia. Os colegas gritam-lhe que não seja doido e não suba aos postes mas ele vai na mesma. Descobre que algo sobrenatural está a provocar a borrasca e torna-se um verdadeiro herói, combatendo a ameaça. Pelo caminho conhece uma bombeira (ou repórter) gira e intrépida que o acompanha na aventura, e há um romance, porque nestes filmes tem de haver um romance algures no percurso* - sem luz, sem internet, querem que eu me distraia com quê?

 E no meio disto tudo, sem saber de que cor era o alerta, se havia riscos, ou que riscos, se teríamos energia para cozinhar (creio que encomendar pizzas num dia destes é capaz de ser uma ideia de mau gosto) a senhora minha mãe lembra-se de ficar preocupada...com os bichinhos que vivem aqui à volta, no bosque.

- Oh Meu Deus, pobres passarinhos, onde é que eles se abrigam?
- Sim...coitadinhos. Sei lá, suponho que tenham tocas.
- Mas os passarinhos? Vivem nas árvores, não têm como se esconder. Morrem todos para aí.
- Sei lá...coitadinhos, realmente, sei lá *a ver outra árvore quase, quase a ir ao chão* faço lá ideia, suponho que tenham mecanismos de defesa próprios desde que o Mundo é Mundo.
- Ó Sissi, fracamente, olha que insensível!
- Fico aflita por cada ser vivo que não se possa abrigar com um tempo destes. Mas se me ponho a preocupar com cada bichinho, esquilinho, raposinha ou javalizinho que viva nas redondezas fico para aqui a chorar.
- Compreendo que seja uma defesa mas sinceramente cai-te muito mal! As aves migratórias tudo bem mas as que cá ficaram, os pardalitos e os corvos, ai ai ai ai ai ai...
Pobre mamã! E lá tive eu, que não percebo nada de ornitologia, de fazer um raciocínio quanto ao instinto dos melros e pardalitos, muito mais aguçado que o nosso, que provavelmente os avisa para se porem a milhas antes de a tempestade começar.
- Mas se a tempestade não for localizada?
- Devem abrigar-se nos beirais dos telhados e anexos que há para aí. Quanto aos corvos, se fazem tocas para esconder objectos brilhantes, devem pensar em esconder-se lá no meio dos seus tesouros quando o tempo está feio.
- Ah. Ainda bem. Já fico mais descansada.

Volta a electricidade. Tudo a carregar telefones, a abrir estores,  a ligar computadores e aquecedores. Os gatos, esses, voltaram ilesos para casa, e tiveram a sua dose de secagem com toalha aquecida (haja paciência).

Entretanto, ouve-se um 

*Grito lancinante* MÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAE.

Nós: Meu Deus, meu Deus, que foi? (a imaginar alguma coisa realmente má)

* Silêncio prolongado, nós escadas abaixo a ver o que se passava com o meu irmão*

- Onde estão as minhas botas?
- Seu este, seu aquele, isso são sustos que se preguem às pessoas????

E nisto uma rajada de vento assobia a meter medo, os alarmes das redondezas disparam todos, um dos gatos sai porque já está seco e almoçado, e não há pitada a perder lá fora...e cai a luz de novo. 

Depois do pôr do sol, fica tudo escuro como breu. Vou à cozinha acender uma vela, a pensar que estou a dar uma grande ajuda,  e volto para o pé dos outros que estão na sala às escuras, a tentar acender a lareira. E ali vou corredor fora, que nem uma alminha o outro mundo de vela na mão.

O meu caro irmão: AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, uma luz!!!!
Todos: AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, que é isso?

Eu: ???????????

Pensavam que a cozinha estava a arder. 

E depois disto caiu granizo, o piquete para lá anda a fazer o melhor que pode com umas lanternitas debaixo desse gelo, e eu acabei por sair para poder publicar alguma coisa e ver luz porque hoje descobri que a carreira de morcego ou de vampiro não me serve. Aquele cliché piroso "só damos valor à luz quando ela se apaga" é a mais pura verdade!

My fine friends, o Imperatriz está  a chegar à 2ª fase da eleição Blogs do Ano 2012 e precisa MESMO dos vossos votos até dia 19! Por isso, se acham que merece o  incentivo dos leitores mais fofos e respeitáveis de toda  ablogosfera, 
continuem a votar até amanhã à meia noite nas categorias "Moda" e "Generalista"aqui e a passar a palavra. Much gratitude!

                           






2 comments:

Carla said...

HAHAHA essa carola não pára!

Tamborim Zim said...

ahahah Sissi branca e leda, de vela nas mãos, caminha marmórea pelo corredor debruado a bruma e movido a treva. E de repente... o bombeiro intrépido, qual Tarzan da EDP, pula por cabos e montes e resgata a luz! Fiat lux!; ordenara Sissi. E assim, sim, é q foi! ihihihih Amei!

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...