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Friday, January 25, 2013

Eu embirro com...o Dia dos Namorados

                                
Provavelmente vou escandalizar algumas meninas, senhoras, marcas e românticos empedernidos ao dizer isto ("o que nós queríamos era um post para o obrigar a 
lembrar-se do Dia dos Namorados!", "com a crise que por aí vai escreve coisas que são más para o negócio?" ou " anda um homem a esforçar-se para vir a Sissi meter ideias malucas na cabeça das mulheres que lhe lêem o blog?"). Desculpem qualquer coisinha, que eu sou pelo amor, sempre o disse; algumas coisas que tenho escrito versam sobre o tema e já têm sido inseridas em formatos de época, por uma questão de coerência; enquanto jornalista perdi a conta aos "especiais Dia dos Namorados" que enchi de todas as tradições, mitologias e  amantes lendários de que me lembrei, fora as costumeiras entrevistas a casais -modelo, ou casais idosos com amores à prova de bala;  acredito que faz sentido haver uma altura do ano dedicada aos namorados. Acho lindamente que se festeje o amor. Mas detesto a pressão colocada no dia em si, embirro com o sentimento de "obrigação" gerado por essa ideia na mente das pessoas. Já lá vamos.
 Nos primeiros S. Valentins, achei a maior das graças àquilo tudo. Já tinha recebido muitas flores por razões profissionais, mas era giro receber rosas encarnadas oferecidas com aquela intenção. E cartões com ursinhos e cartas de amor verdadeiras lá dentro (nisso sempre fui sensata; nunca gostei de frases feitas). O entusiasmo durou algum tempo. Depois comecei a observar o que se passava à minha volta, e estando só ou acompanhada, comecei a ganhar certa birrazinha ao dia. Cheguei a optar por celebrar, mas em casa. Isto por coisas como:

  - Artigos em revistas femininas (ou pior, juvenis) que sugeriam manobras - de - mulheres - da -luta do estilo "quinze dias antes, comece a mandar mensagens com uma contagem decrescente...faltam X dias para o Dia dos Namorados" (juro que li mesmo esta e pensei e porque não amarram o infeliz a uma cadeira com uma arma apontada? Era menos cansativo, já agora). 

- A loucura sazonal de amigas e colegas, cada uma em verdadeiras sessões de exibição desesperada "o meu namorado é melhor que o teu" (mesmo que o relacionamento estivesse a dar o triste piu). O pânico "se ele se esquece, ai que vergonhaça!". A pressão sobre os respectivos, que por sua vez faziam malabarismos para equilibrar a atitude "eu sou muito homem, não ligo a essas picuinhices" perante os amigos com a necessidade de agradar para não serem trucidados ... e lá iam comprar as flores queixando-se "tem de ser, senão fico de castigo". 

- Ou seja, o Dia dos Namorados começou a ganhar o poder de transformar qualquer mulher  senhora de si no protótipo da Mulher Chata, Peganhenta, Carente e Chantagista, e qualquer homem num bruto ("eu não ligo a essas piroseiras") ou num cordeirinho ("que vida  a minha, comprar flores sem me apetecer...chata de mulher, se um dia eu abro a pestana") ou em mais um no meio da carneirada, caso fosse genuinamente romântico (ele todo contente com o bouquet, e os machões de serviço "lá vai outro desgraçado com as algemas nos pulsos").

  - As estratégias de contra-Dia-dos Namorados, vulgo "Dia dos Encalhados" ou "jantares de solteiras que não querem saber pois são muito independentes mas no fundo estão mortinhas por se apaixonar", tudo isso numa vibe " Raposa que não foi às uvas". 

- O clima de "tanto faz estar genuinamente apaixonado e envolvido como a fazer a parte, porque é tudo posto no mesmo saco".

 - Os mitos "Véspera do Dia dos Namorados é bom para arranjar par temporário porque anda tudo aflitinho para não estar sozinho num dia tão simbólico".

- A tonteria de não se poder jantar fora nessa data sem ser assaltado por coraçõezinhos, cupidinhos, velinhas e música ambiente com sussurros e saxofones, de não se poder sair como casal sem a etiqueta "olhós namorados, primos e casados" enfim, de uma celebração íntima se tornar formatada, por muito boa vontade que haja. Nesse dia toda a gente tem de estar bem disposta, apaixonada e feliz, mesmo que calhe a meio da semana de trabalho e não haja paciência para o modo flirt, sedutor ou romântico ou que andem arrenegados e voltem a estar no dia a seguir porque as causas do problema são sérias e continuam presentes. 

- E já não falo nas manifestações Facebookianas desesperadas que não se tratam de demonstrar amor ao parceiro, mas de colocar o carimbo "este é meu e ninguém tira" para todo o mundo ver...

Sou a maior defensora da tradição mas tudo o que "é suposto só porque sim" ou o 
"sentir-me romântica de propósito" tem o condão de me enervar. O Dia dos Namorados não é necessariamente piroso, mas por força do número, e de tantas mentes pirosas que adoram frases feitas, demonstrações hipócritas, expor o amor para "inglês ver" mesmo quando o amor não é dos grandes, acabou por se tornar algo pequeno burguês e kitsch  demais para meu gosto. 

Não me levem a mal, acho que o dia tem as suas vantagens:

- Um casal realmente apaixonado que se zangou e tem aí uma óptima desculpa para fazer as pazes.

- Um casal que está apaixonado mas ainda não se declarou: enviar um "Feliz Dia de S.Valentim" é um excelente pretexto para chamar "as coisas pelos nomes" informalmente e sem muita pressão.


Porém, acredito acima de tudo no lugar comum que reza " Dia dos Namorados é quando o casal quiser". Em última análise, creio que celebrar o dia em que se conheceram ou o aniversário de namoro/casamento é muito mais romântico, mas isso sou eu. É bonito honrar datas especiais, porém os gestos espontâneos têm outro impacto. Faço questão de ser bem tratada;  não sendo dada a romantismos estereotipados gosto muito de trocar presentes. Penso que uma mulher que valorize certos gestos, ou um homem que seja genuinamente romântico, devem cultivar esses mimos na relação a tempo inteiro, para que as "datas especiais" não se tornem uma farsa
 Infelizmente, para muitos casais é mesmo. E para quem como eu vê o natural, mas divino acto de se apaixonar (ou o desafio que é construir um relacionamento com pés e cabeça) como algo especial, íntimo e único, misturar coisas tão pessoais no caldeirão das pressões, obrigações, manipulações e foleiradas é no mínimo, desvirtuar o amor. Por mais que se assuma, sem problemas, que o Cupido é por excelência pindérico e faz as pessoas fazer coisas um bocado tontas. Como a pimenta, a foleirada que dá gosto à vida precisa de ser doseada. E tal como o amor, não se pode forçar ... ou perde a graça toda.







6 comments:

Na Província said...

ehheheh, ora vamos lá ver, eu já passei muitos dias dos namorados sem namorado outros com namorado e agora com marido e costumo dizer é um dia para causar o stress, e quem o "inventou " merecia um tiro, pois, mesmo quem não liga não pode deixar em branco e se tem a brilhante ideia de levar a cara metade a jantar, vai ouvir poucas e boas porque só estão 400 pessoas a sua frente :) :) Não sei o que pense sobre este dia ...
Um beijinho

Framboesa (uma diva de galochas) said...

Eu gosto...por mim todos os motivos são óptimos para festejar...embirro com dias que lembram a guerra ou as coisas más da vida...com dias que lembram o amor não embirro nada :) E não, não troco presentes nesse dia, ou pelo menos não troco mais que em outro dia do ano e não, não preciso de um dia para recordar que amo o meu marido há 15 anos todos os 365 dias do ano...apenas gosto de dias ainda mais especiais que os outros que ja são especiais :)...e para ajudar aos festejos faço anos de casada logo a seguir dia 16 :) beijinhos

Isto e aquilo said...

Adorei este post, Sissi, com o qual não posso estar mais de acordo.
Eu também "embirro com o Dia dos Namorados". Não vou tão longe como a minha irmã, que dizia que ter um namorado que quisesse celebrar a data era motivo suficiente para acabar o namoro porque não augurava nada de bom - eheh!
também sou pela celebração do amor, porque não nada na vida mais importante, mas que seja espontânea e não porque "tem que ser".
Parabéns! Gosto mesmo do seu blog.
Beijinho
Isabel Mouzinho

Jedi Master Atomic said...

Eu não ligo nenhuma a esse dia nem a nenhum que seja um apelo ao consumismo.

Jedi Master Atomic said...

Ah é verdade....tanta coisa, tanta coisa....continuo à espera do post sobre moda masculina com as sugestões que dei :P

A Flor said...

Também me considero, em muitos aspectos, uma defensora da tradição. Mas, neste caso, que tradição? Uma tradição importada há coisa de duas décadas para os comerciantes venderem mais? Essa tradição não estou interessada em defender. Se é para festejar o amor ao menos que fosse no dia do nosso Santo António...

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