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Monday, January 21, 2013

Malandrices que eles fazem #2: falsa humildade, a.k.a Reconciliação Estratégica

                           
Hoje (desculpem, rapazes) nós meninas vamos analisar mais um truque muito utilizado por namorados e outras modalidades de mais-que-tudo desde que o mundo é mundo. 


Situação:
Ele faz asneira da grossa. A culpa do aborrecimento é da total responsabilidade dele. Discutem e a amada, ciosa da sua justiça, amua, corta a comunicação ou, se o caso for grave, decide mesmo dar o caso por encerrado e partir para outra. 
 Eis que dali a pouco o cavalheiro parece cair em si e entra em contacto, carregado de boas intenções, frases fofinhas, cedências...enfim contrito, humilde e queridinho, que até parece mentira. Faz olhos de bambi, esforça-se por agradar e fazer rir, tudo para conseguir um encontro ou uma nova oportunidade.
 Mas uma vez conseguido o objectivo, o arrependimento evapora-se. Aposta até em ser parvo, frio e desagradável ou dá o dito por não dito, fazendo a conversa regressar à estaca zero e não admitindo ( muito menos corrigindo) os disparates que levaram à zanga em primeiro lugar. Se for preciso vira o jogo, atirando as culpas para a outra parte, numa manobra passivo-agressiva ("se andamos chateados a culpa é tua que só te queixas das minhas asneiras...nunca está nada bem para ti..") . E uma pessoa, que estava tão bem sossegada e com a questão já arrumada na sua cabeça,  fica a pensar " bem me enganaste. Acabo de fazer figura de parva, vim perder o meu tempo para nada. Este não aprende! ". É uma atitude frustrante e que não leva a lado nenhum.
   Para exemplificar melhor, mais uma vez recorro ao tio Eça de Queiroz que, conhecedor das fraquezas humanas e perfídias de ambos os sexos, ilustrou sem tirar nem pôr essa mesma situação em O Primo Basílio (retrato do malandreco mor!). 

Tinha fechado o envelope, quando Juliana lhe veio trazer “uma carta do hotel”. Basílio mostrava-se desesperado: “...Como não vieste, vejo que estás zangada; mas é decerto o teu orgulho, não o teu amor que te domina; não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei até às cinco horas; que suplício! Fui talvez seco, mas tu também estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor,.. Vem amanhã. Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou de abandonar os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me aqui em Lisboa, etc.”.
Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer.  (...) Iria, não iria? O calor fora, a poeirada da rua faziam-lhe apetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz também! Atirou ao ar uma moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se sem vontade, secada, — tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões da reconciliação...
Mas que surpresa! esperava encontrá-lo humilde e de joelhos; achou-o com a testa franzida e muito áspero.
— Luísa, parece incrível; por que não vieste ontem?
Na véspera, Basílio, quando viu que ela faltava, teve um grande despeito e um medo maior (...)  o seu orgulho escandalizou-se de ver libertar-se aquela escravazinha dócil.  Escreveu-lhe; (...) e mostrando-se submisso para a atrair, decidiu ser severo para a castigar.


Esta é uma manobra clara de orgulho masculino, cheia da característica desfaçatez (não se incomodarem com o facto de não bater a bota com a perdigota entre as duas ocasiões,  dá que pensar se não sofrerão de múltipla personalidade ou distúrbios do género). Como quem diz "rebaixei-me mas não julgues que agora vou estar todo fofinho. Vai ficar-te cara a brincadeira de me obrigares a ceder. Deixa estar que eu já te baralho as ideias, e deito-te o pedestal por terra". Ou seja, a jogada é muito simples:

- Agir de forma humilde, carinhosa e totalmente inesperada faz a "adversária" baixar a guarda.

- Uma vez juntos, o "ataque surpresa" pretende ter o efeito de um balde de água gelada; as "negociações" programadas não chegam a acontecer.  Espera-se aqui que o "exército inimigo" veja a sua posição ameaçada e assim, perca a confiança, vulgo "oh Meu Deus. Julgava que ele andava atrás de mim; afinal já não está interessado. Que terá acontecido? Há moura na costa?". Lá dizem os estrategas "nenhum homem está derrotado até estar derrotada a sua confiança", e com as mulheres é o mesmo. O objectivo é atemorizar a "adversária", invertendo as peças no tabuleiro e obrigando-a, por sua vez, a perguntar-lhe o que se passa, a entregar pontos, a ser cautelosa e a pedir batatinhas.

- Numa operação bem sucedida "a inimiga" capitulará, porque vai ficar tão picada pela sua indiferença e tão furiosa pela viagem à senhora da asneira, que estará por tudo. Se a mulher em causa for ciumenta melhor ainda, porque a mera suspeita será suficiente para a fazer imaginar os piores cenários. O mais provável é o falso humilde afastar-se com o Rei na barriga e ficar muito caladinho, à espera que a mulher venha atrás dele...o que acontece boa parte das vezes. Missão cumprida! Inverte-se o jogo e a mulher, que tinha razão em primeiro lugar, é que cede feita tonta e ainda lhe pede desculpa. Genial, hein?

Claro que esta estratégia só tem sucesso quando uma mulher está desprevenida, ou é tão ingénua que julga que manhas e ardis são exclusivas do sexo feminino. Não se iludam: afinal, a guerra foi assunto masculino durante séculos; memória genética e princípios culturais enraizados não desaparecem só porque os costumes mudaram há cinquenta, sessenta anos. 

 Se desconfiarem de uma Manobra de Reconciliação Estratégica (e geralmente, só se percebe a tramóia tarde demais) o remédio é reconhecer a birra pelo que ela é e não se afligir com isso. Depois, das duas uma:

- Ou se confirma (e atitudes destas são um excelente pretexto para isso) que o cavalheiro é mesmo uma perda de tempo e se corta de vez com a pessoa...


- ...ou não se dá troco à birra, pois como dizia a minha tia "as pernas que o levaram 
hão-de trazê-lo"  se ele estiver mesmo interessado. E caso sinta que fez MESMO figura de tola e que perdeu a face ao ceder a um ardil  tão manhoso, pode sempre armar-se de paciência e consolar-se arquitectando uma vingança terrível...







1 comment:

L' Amoureuse said...

Boa muito boa.... contra mim falo, eu devo ser mesmo ingénua, estava a ler o que escreves-te e estava a ver-me a mim.... que raivaaaaaa.

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