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Friday, January 11, 2013

Piano girl

                                    
Chove que Deus a dá, a casa está em silêncio, correm-se os dedos pelas teclas. Ora se trauteia em gaélico, ora se cantam pedaços de árias, de canções preferidas, para passar impacientemente a outra coisa. É incrível o que as notas podem exprimir, quando a inspiração está por perto. Sensações que já não conseguimos evocar, ou que preferíamos não prolongar, mas que assomam como no relampejar de um sonho; modelos que já não se repetem, porque as circunstâncias mudaram irremediavelmente: cristalizaram assim, vulcanizados, parados no espaço, mas não têm vida nem continuidade - existem só na medida em que lhes atribuímos sons e palavras. O toque do telefone, ângulos de locais (estantes, lustres, salas) - e os minúsculos tumultos interiores que essas visões ou acontecimentos traziam. Demasiado fugazes e insignificantes para descrever num texto, reparem nesta salganhada - mas uma nota é rápida que chegue para os apanhar e converter em algo com cabeça, tronco e membros. Uma entoação diferente pode traduzir, num relance, a angústia ou a ansiedade que se transformam em alegria e vontade de saltar, quando uma boa nova muda o que parecia perdido. E basta sussurrar a mesma estrofe para explicar a desilusão que se segue quando a roda volta a girar e tudo fica na mesma, sem explicação nem matéria. Depois ainda há  a letra, que teima em aparecer feita de farrapos e retalhos, só a contar as partes importantes da história, real ou imaginada: the girl you yearn for is the woman you hate, the boy that you loved is the man that you fear, e por aí fora.

1 comment:

Tamborim Zim said...

Bela evocação. Haja notas p musicar a alegria q outras notas ameaçam.

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