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Thursday, February 7, 2013

Anne Boleyn, crime: ter cabeça

                                                     
Para os padrões da sua época a segunda rainha de Henrique VIII, a mulher que virou Inglaterra do avesso, não era considerada uma beldade: pálida de pele, mas não do "branco puro" que estava na moda; esguia (quando o ideal era uma figura algo voluptuosa) e com um longo cabelo azeviche que lhe chegava abaixo das ancas, cortesia da sua avó irlandesa, tinha mais de feiticeira ou sedutora fatal do que a imagem da esposa ideal para um monarca. A sua maior beleza, segundo os contemporâneos mais ou menos simpatizantes, estava nos grandes olhos escuros, sedutores e expressivos. 

                                  
Quem não gostava dela exagerava este traço, chamando-lhe "prostituta de olhos esbugalhados" mas para os seus admiradores ela sabia realmente "usar os olhos com efeito". O famoso pescoço de cisne e a boca "um pouco grande, mas bonita" (algo que seria um factor positivo nos nossos dias) eram outros predicados que contribuíam para o seu poder de atracção. É natural que, chegada de França, onde foi educada como dama da Rainha Cláudia (senhora de notável instrução) e privou com a fascinante Diana de Poitiers, as suas toilettes graciosas (tão diferentes das pesadas fatiotas e toucados em voga na corte inglesa) o seu espírito e o talento para a música e a dança, aliados a uma beleza tão dramática, tão original, captassem as atenções. 
Mais do que formosura convencional ou o pedigree certo (por parte da mãe, Lady Elizabeth Howard, era neta do segundo Duque de Norfolk mas a família do pai, o notável diplomata Thomas Boleyn, tinha um background ligado ao comércio) Anne possuía uma educação sofisticada, um sentido de estilo infalível e um poderoso sex-appeal. Era carismática, divertida e boa companhia - qualidades essenciais para ter sucesso na corte de Henrique VIII. Demasiado sucesso. Se não há muito tempo os historiadores concordavam com a tese de Anne Boleyn como sedutora implacável, destruidora de lares e por fim, adúltera que teve o que merecia, a visão actual é bem mais benevolente. Alguns apontam-na mesmo como uma das maiores vítimas de assédio sexual da história. O grande amor da sua vida não terá sido o Rei, mas Henry Percy, filho do Conde de Northumberland. Na altura em que Anne entrou ao serviço da que se tornaria sua rival, a Rainha consorte Catarina de Aragão, os dois jovens estavam apaixonados e assinaram mesmo um pré contrato nupcial. Pensa-se que foi por influência do monarca, que já teria voltado os olhos para Anne, que o Cardeal Thomas Wolsey arranjou forma de desfazer a união. (O casal nunca lhe perdoaria e vingar-se-ia mais tarde). Em 1526, o Rei começou oficialmente a cortejar (ou perseguir, conforme a perspectiva) Anne. Por essa época, ainda com os predicados que lhe tinham valido a alcunha de " o mais belo príncipe de toda a Cristandade", Henrique era um homem determinado, obsessivo, caprichoso, pouco habituado a aceitar uma recusa. Anne defendia-se: não queria ser amante do soberano, como a sua irmã, a desmiolada Mary - usada e rapidamente posta de parte. Anne desejava manter uma reputação séria e fazer um bom casamento, de acordo com a sua posição. Por outro lado, ofender o monarca podia ter consequências desastrosas para si e para os seus. O Rei estava loucamente enamorado: detestava escrever cartas mas sobreviveram várias missivas de amor, elaboradas pelo seu punho, dirigidas à perturbante morena. Debalde: Anne manteve-se firme, recuando como podia; só se entregaria a um homem que fosse seu marido, e o Rei já era casado... 

                      ..
 Tanta resistência obrigou Henrique a decidir-se, e o resto é história: após sete anos de namoro e uma cisão com o Papa, casou com Anne em 1533, quando esta já desesperava de ter lançado à rua os melhores anos da sua vida. Mas como acontece tantas vezes, o desejado troféu perdeu a graça depois de obtido. Anos de espera, de sustos, de angústias, tinham desgastado a paixão que os unia. Acima de tudo, as qualidades que pareciam irresistíveis numa amante - espírito, ideias, língua afiada, resposta pronta, sensualidade, personalidade - revelavam-se incómodas numa esposa. Mais do que a incapacidade de gerar um filho varão, este terá sido o principal motivo para a queda da rainha consorte: o rei rapidamente se saciou dela, e Anne não lhe tolerava os destemperos como Catarina de Aragão tinha feito. Como sua mulher exigia explicações, não admitia infidelidades, interferia em decisões políticas. Henrique era conhecido pela sua generosidade, quando "levado por bem" mas abominava ser contrariado. O leito conjugal tornou-se um inferno e bastaram meia dúzia de intrigas para fazer o resto. Como bom infiel, acusou-a do mesmo. O homem que a pusera num trono tornou-se o seu carrasco.
Quanto a Henry Percy, casou com Lady Mary Talbot, mas ao que tudo indica, continuou  apaixonado por  Anne até ao fim: no seu julgamento, teve de ser levado em braços - desmaiou, por não suportar ver a mulher que amava ser condenada.







5 comments:

Cláudia Lemes said...

AMEI o post, Sissy, e sou fã da Ana Bolena desde os 18 anos (tenho 33). Só não concordo com o final. Na verdade foram muitas intrigas e mentiras que finalmente levaram à decaptação de Ana. Henrique não pode ser culpado sozinho, já que seus conselheiros manipularam muitas informações para que ele acreditasse que ela havia cometido adultério com 5 homens, inclusive seu irmão. Foi muita politicagem, infelizmente. Acho que no final, entretanto, Ana ganhou, já que foi sua filha que teve o reinado mais próspero da história da Inglaterra :)

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Cláudia :D. De facto, "meia dúzia" é uma força de expressão. Seria impossível detalhar num post todas as subtilezas e politiquices que levaram a tão triste desfecho. Mas é inegável que a tensão criada entre Henrique e Anne por ciúmes contribuiu muito para isso. Conhecendo o Rei, não acredito que ele próprio estivesse convencido das infidelidades: fartou-se e morta a primeira mulher (havia sempre o risco de o obrigarem a voltar para Catarina de Aragão, uma vez que ele não podia alegar que ambos os casamentos eram ilegítimos sem perder a face) quis estar à vontade para procurar uma mulher mais dócil e com melhores possibilidades de lhe dar herdeiros. Nisto entra Jane Seymour que, com as suas qualidades (apesar do que dizem, acho que mesmo que não tivesse morrido, o casamento teria resultado) não era nenhuma santa, nem isenta de intrigas por seu lado. Anne estava condenada à partida. A forma como foi encurralada desde o início sempre me fez muita confusão. Beijinhos

Urso Misha said...

Então ao que parece sempre é verdade a frase a historia encarregar-se-á de mostrar a verdade...
e é uma história fantastica...

Kaia Kakós said...

Cada vez gosto mais de passar por aqui e de ler a Imperatriz Sissi. Até que enfim um blog que alia cultura com mundanidades. Adoro a pintura retratada em primeiro lugar, pelos padrões de hoje seria uma mulher lindíssima, tem traços finos, cabelo escuro e pele alva. Uma senhora, portanto. E adoro o pormenor do seu famoso colar de pérolas com o B do seu nome. Uma verdadeira It Girl tudoriana!

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