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Friday, February 1, 2013

Quatro mulheres


Toda a minha vida fui "rato de biblioteca" mas selecciono bastante os romances. Apesar de haver muitos que fizeram as minhas delícias - quase todos de autores mortos e enterrados, que não correm o risco de se desvirtuar - poucos nesse formato oferecem personagens femininas que possuam, aos meus olhos, verdadeira dimensão e alma. Ou porque não giram à volta de uma mulher, ou porque as pintam em coloridas e sensoriais pinceladas, que nos permitem fazer uma ideia muito breve das suas motivações e vida interior. Outras ainda  - como Madame Bovary ou Tess - são marcantes mas estúpidas, azaradas ou caricaturais. Há, obviamente, a  Nana de Zola (para mim, o retrato mais realista, sedutor e sinistro de uma cortesã da sua época) A Dama das Camélias, que é encantadora mas idealizada, a Berta de Os Fidalgos da Casa Mourisca - um modelo de comportamento senhoril  - Scarlett O´Hara (sempre dividida entre o seu lado aristocrático francês e o irish temper que a domina, o que há para não gostar?) Lolita (vista pelos olhar embaciado de um adorador obsessivo,  logo algo intangível para o leitor) Catherine Earnshaw, de Wuthering Heights (meninas, aprendam que às vezes é preciso não atraiçoar o próprio coração, porque se corre o risco de penar por vinte anos); noutro registo,  Lady M. da Peça Escocesa e a mãe de Hamlet, de Shakespeare (demasiado complexas no uso do seu poder feminino para que me atreva a debruçar-me sobre elas neste post) e as mulheres de Jorge Amado, tão vivas, tão sensuais que parecem saltar das páginas, entre personagens menores ou protagonistas de romances menores que não deixam de ter a sua graça. Porém, houve quatro personagens femininas que me marcaram especialmente - por motivos muito distintos.
                 
Celestine (Octave Mirbeau, O Diário de uma Criada de Quarto)
Provinciana tornada numa parisiense típica, a bonita Celestine é uma criada de quarto de luxo com a mente de um antropólogo, um sentido de humor acutilante e um mau feitio   que por um lado, a mantém a salvo da exploração a que estavam sujeitas as mulheres do seu tempo e do seu meio, mas por outro a leva a rodar de casa em casa. A  língua afiada não a deixa conservar o mesmo emprego muito tempo, por isso o seu diário é cheio de peripécias -  ora retratos da miséria humana, ora situações deveras cómicas. A quem não leu, recomendo a tradução de José Parreira Alves (ed. Inquérito) que é uma delícia. Reproduzo uma entrevista de emprego daquele tempo, numa agência de colocações algo sórdida:

 "Um dia, apareceu uma mulherzinha, com o cabelo indecorosamente tingido, os lábios passados a mínio, as faces esmaltadas, insolente como uma galinha - da - índia e perfumada como um bidé, que ao fim de trinta e seis perguntas, me fez mais esta:

- E a sua conduta?...Recebe amantes?
- E  a senhora?  - retorqui eu, muito calma e sem mostrar o menor espanto."


Maria Eduarda ( Eça de Queiroz, Os Maia)

Escolha óbvia: Maria Eduarda Maia é a única -ou das poucas - mulheres que Eça de Queiroz pinta com uma luz positiva.  Fidalga arrancada às suas origens para levar uma vida de incerteza à mercê dos desmandos de uma mãe aventureira e dramática, a protagonista tem beleza, bondade,  um espírito elevado, graça, sensualidade, gosto...é uma mulher (e senhora) aparentemente perfeita e os erros que comete são fruto do infortúnio. Maria Eduarda está desenhada para ganhar a simpatia do leitor, mas o que me marcou desde a primeira vez que li Os Maias foi o seu sentido de estilo. O seu guarda roupa, como tudo nela, é luxuoso, mas sóbrio:

"(...)maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz de suas botinas".

"Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta, um colarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas verdes no peito (...) "

"Trazia ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas às vezes uma gravata de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivela era cravejada de pedras, avivavam este traje sóbrio  quasi severo, que parecia a Carlos o mais belo, e como uma expressão do seu espírito".


Marquesa de Merteuil (Les Liaisons Dangereuses, Choderlos de Laclos)

Foi paixão à primeira vista. Ou leitura. A manipuladora marquesa é a minha anti heroína favorita: uma mulher dona dos seus desejos, da sua vontade, que procura acima de tudo a independência e supremacia. Faz horrores com um estilo indelével, um génio de estratega e uma graça irresistível. Semeia a destruição à sua volta com um auto domínio à prova de bala. Joga com os homens na sua vida como quem move peças de xadrez. E todos a adoram, porque usa uma máscara de bondade e beleza como ninguém. No fundo, a sua motivação é compreensível: vingar as mulheres, com as suas maldades, dos horrores que vê os homens fazer impunemente. Mazinha, mas adorável. 


  "Já sabia  o papel a que estava condenada; calar-me e fazer o que me era ordenado dava-me a grande oportunidade de ouvir e observar. Não o que me diziam, naturalmente desprovido de interesse, mas tudo o que tentavam esconder de mim.
Exercitei a indiferença. Aprendi a mostrar-me alegre debaixo da mesa, espetando um garfo nas costas da mão. Tornei-me… perita em dissimular. Não procurava o prazer mas o conhecimento. Consultei o mais severo dos moralistas para aprender a posar. Filósofos, para saber discernir. Romancistas, para ver o que poderia aproveitar. No final, reduzi tudo a um princípio maravilhosamente simples. Vencer ou morrer".

 Pan Jinlian/ Lótus de Ouro (Lanling Xiaoxiao Sheng, Jin Pin´g Mei, "A Ameixa em Vaso de Ouro")

Meninas que andam encantadas com "Fifty Shades of Grey" larguem esse horror e arranjem como puderem uma tradução decente e integral deste clássico chinês, um equivalente oriental a livros como "Fanny Hill". Literatura, portanto, mas com picante. Lótus de Ouro é uma das seis esposas do playboy Ximen, e a mais inteligente de todas - um pouco como Madame de Merteuil, mas dada a métodos menos subtis. Linda, culta, glamourosa, cheia de vida, com um espírito sagaz e divertido, num minuto é um anjo e logo a seguir um demónio, conforme a necessidade. Acima de tudo, é uma sobrevivente num mundo cruel. Na cultura chinesa foi considerada durante muito tempo o arquétipo da esposa adúltera, mas ganhou recentemente uma luz mais positiva noutras versões da história, pois é de facto  impossível detestar a personagem.




                                                                                          





2 comments:

Petra said...

Adorei este post, e já li o diário de uma Criada de quarto, lol adorei.

Kaia Kakós said...

Excelente escolha! Claro que, para mim, a minha heroína será sempre Jane Eyre, com a sua força espiritual e desejo de ser livre e feliz...mas aos olhos de hoje, mesmo com a esposa trancada no sotão...eu fugia era o tanas! Mr. Rochester, here I go!! :-)

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