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Monday, February 4, 2013

War is over, ou do stress pós traumático leve

                              
Ainda agora aqui chegado 
meu cavalo já cansado 

trago o peito enamorado 

e a armadura em desalinho 
minha espada eu embainho... ***

Já vos aconteceu passar por uma situação prolongada e negativa que vos obrigasse a manter os músculos permanentemente tensos, a um constante estado de alerta, a dormir com um olho aberto e outro fechado?
 Erguemos a cabeça e contemplamos o cerco: quando Alexandre, o Grande, tentou tomar Esparta, veio cheio de ameaças. Se não se renderem, raptamos as vossas mulheres, escravizamos os jovens, massacramos os velhos e arrasamos a cidade. Os Espartanos sorriram à basófia - um leve sorriso, um erguer imperceptível do canto dos lábios ante a bravata do grande conquistador. A resposta veio curta e célere: "se". Ora atrevam-se.
 Mas imagino que até eles se mantivessem de atalaia dias depois de o Macedónio ter virado as costas.
    estendei toalha de linho 

onde estenderei os dedos 
lede neles os enredos 
das conquistas, dos degredos 
assim eu contar pudera 
era uma vez um rapaz 
é vê-lo avançar 
entre a guerra e a paz


 O furor da batalha imposta é tal que esse estado se torna insensível, automático; uma pessoa nem se lembra de ter medo. É sempre assim quando se tem mais coragem que miolos, age-se como um gato pequeno atacado por um urso - que em vez de esconder e fugir, eriça-se, faz-se maior do que é e atira-se com unhas e dentes se não lhe deixarem alternativa. Quando o conflito termina finalmente, demoramos algum tempo a notar cicatrizes e as marcas da adrenalina; não percebemos como nos moeu o corpo e a alma; o alerta laranja fica connosco. 
despedido do recato 

vou de calma ao desacato 
vou do pardal à pantera 


Enfim está tudo bem, as tropas dispersam, mas as defesas continuam erguidas, não conseguimos desmantelar a fortaleza, o braço ergue-se, num reflexo condicionado, para segurar o escudo e flectimos as pernas como se ainda houvesse golpes para aparar. Damos o peito às balas, mas os canhões estão reduzidos a cinzas; e julgamo-nos a lutar à sombra, quando o céu já está limpo e as flechas não são senão entulho. Nenhum guerreiro descansa de repente.
       E de meandro em meandro 

vou-me circunavegando 
sob as estrelas buscando 
o outro lado da busca 
quase sempre o amor me ofusca 
de uma forma doce e brusca 
assim eu amar soubera...
Guerreiros são só pontos no horizonte 
a monte 
a monte 
anda o guerreiro sem parar 
a paz foi tudo o que ele foi buscar 


***Sérgio Godinho, Guerra e Paz
                                                   



2 comments:

Sérgio Saraiva said...

Normalmente passo por isso todos os dias de manhã quando acordo depois de mais uma epopeia heroica, de batalhas e conquistas épicas :P

Imperatriz Sissi said...

Há que buscar a paz, a todas as horas do dia ! ;)

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