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Tuesday, April 30, 2013

Arbiter elegantiarium: até o Vício exige estilo

                                     

Hoje reparei que uma personagem que sempre me fascinou ainda não tinha marcado presença aqui no Imperatrix. Falta grave: Gaius Petronius, o árbitro das elegâncias ( arbiter elegantiae ou arbiter elegantiarium, as you like it) da corte de Nero, e suposto autor do célebre - ou infame -  retrato dos vícios mais grosseiros, o Satyricon, merece a homenagem de todos aqueles que fazem por cultivar um bocadinho de gosto. Afinal, foi talvez um dos primeiros personal stylists a ficar para a História. Nascido numa família aristocrática e de meios, Petronius conjugava uma enorme sagacidade política (foi cônsul e senador, tendo desempenhado as suas funções brilhantemente) com um verdadeiro culto à beleza, ao prazer e ao luxo refinado. Extremamente inteligente, tanto mostrava grande vigor e capacidade como uma indulgência completa, uma entrega quase científica ao lado sensual da vida, sem nunca perder o domínio nem cair numa prodigalidade prejudicial. Os seus amigos mais próximos garantiam que Petronius não era vicioso, antes imitava e satirizava o vício com singular habilidade, divertindo-se com a influência nefasta que provocava nas cabeças tontas que procuravam imitá-lo. Encantador e eloquente, fazia questão de demonstrar uma total liberdade de discurso, com tiradas que desconcertavam os bajuladores ansiosos por agradar. Petronius tinha a rara capacidade de cair em graça sem bajular, ou de parecer que adulava sem nunca descer a tal. Apesar da língua afiada, ou talvez por causa dela, Nero não o dispensava - tinha-o como autoridade máxima sobre todas as questões de gosto, de estilo, de modas e elegâncias, de festas e prazeres. Tanto ascendente sobre o Imperador não podia deixar de lhe granjear inimigos. Uma intriga de Tigellinus, comandante da Guarda Pretoriana, ditou a sua sentença de morte. Blasé até ao fim, Petronius recusou perturbar-se por tão pouco: cumpriu o costume de se antecipar à execução, mas suicidou-se em grande estilo. Deu uma festa esplêndida e mandou que lhe abrissem as veias aos poucos, para manter o bom aspecto mesmo no caminho para o Outro Mundo. Bebeu-se, recitou-se poesia, e no seu testamento, em vez de elogiar o Imperador e os seus "eleitos" como era hábito, disse a Nero tudo o que pensava dele, expôs todas as suas culpas e deboches, usou-o como um trapo vil. Até para exercer o Vício é preciso alguma sobriedade. E acima de tudo, subtileza. A elegância (e a integridade, ainda que relativa...) cabem em toda a parte, até na corte de Nero...

2 comments:

Cristina said...

O Quo Vadis. Eu adoro esse personagem! Acho que até tinha uma paixonetazinha por ele...

O Caldeirão e a Colher de Pau

Imperatriz Sissi said...

Adoro o livro! E o filme também...o Petronius é sempre o máximo...

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