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Tuesday, May 21, 2013

Chinelice do dia

                           
Octave Mirbeau, no seu romance Diário de uma Criada de Quarto ( um dos meus livros preferidos, nem mais nem menos) conta, através da criada Celestine, o caso típico de uma "senhora" - filha de antigos lacaios subidos na vida à custa de trampolinices - que, à conta do dinheiro sujo dos pais, tinha casado com um homem cheio de pergaminhos, mas pobre como Job. O infeliz fidalgo via-se e desejava-se porque a mulher, apesar de muito linda, não tinha um pingo de educação, tornando-lhe impossível impô-la à sociedade. Ainda por cima era dotada de um mau feitio e de uma língua afiada que fazia a vida do jovem casal num inferno. Por sua vez, à criada, rapariga esperta e habituada a servir amas de maior categoria, não passavam despercebidas as más criações e o péssimo gosto da senhora, que nunca perdera os hábitos rústicos de casa do pai. Numa das suas tiradas típicas, desabafava Celestina, que passo a citar, com licença da linguagem:  "gostava de couves e toucinho cozido, a porca..." mas tudo servido em salvas de prata, entenda-se . Couves e toucinho terão as suas virtudes e agora a cozinha campesina até está na moda, mas percebem a ideia. É muito complicado a quem toda a vida apreciou couves acostumar-se a outras coisas, por mais que pregue que é gourmet e faça vénias a chefs todos pretensiosos como agora se usa e até pague para cozinhar com eles ( o Céu me proteja) ou faça por frequentar locais "in" daqueles que Deus nos livre, cheios de gente dessa ansiosa por aparecer. Voltará sempre às couves, because there´s no place like home. Sentir-se-á sempre mais à vontade perto de gente que não tem nada para ensinar. Por mais que até lhe tentem puxar os brios para cima, ou que a vontade seja muita. Acredito que tudo se aprenda nesta vida, que se possa polir qualquer diamante em bruto, desde que o diamante esteja para aí virado e não seja um zircónio a fazer de brilhante. Mas quando se é assim e se gosta de ser assim, quando se faz questão de, como diz o bom povo, ir de cavalo para burro, não há milagres que valham. Nem fadas madrinhas capazes de transformar repolhos em carruagens. Com uma abóbora ainda se faz alguma coisa, mas não abusem.

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