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Sunday, June 16, 2013

A Síndrome "relações ringue"



Pode parecer-vos disparatado usar uma personagem da franquia Streetfighter para ilustrar o post, mas eu explico. O meu lado nerd sempre teve destas coisas, ia buscar referências estéticas a sítios bastante improváveis. E volta e meia o background, complexidade ou visual deste ou daquele interveniente num livro/filme/série/jogo (nunca fui grande jogadora, mas gostava de artes marciais) lá fazia disparar a minha galopante imaginação. E Vega sempre me pareceu interessante, dentro do estranho tipo "evil is cool" ou mais adequadamente, "evil is sexy". Para já, ele sofria do complexo "cara de anjo, interior obscuro" e nada a fazer, costumo torcer pelo Luzbel (Lúcifer, para quem anda esquecido) de serviço, se ele for bonito e mais do que bonito, sofisticado. Os mais totós lembrar-se-ão que Vega era um nobre catalão da velha guarda, treinado nas lidas de touros: requintado, elegante, valente mas com o seu quê de crueldade, ainda que uma crueldade ingénua de alguém que nunca conheceu outra coisa. Depois, sofria de outro complexo: o de menino traumatizado, danificado (outra síndrome que é a desgraça das mulheres, muitas vezes): viu a mãe, que era lindíssima, ser assassinada pelo padrasto. A sua mente fragmentou-se com o trauma ou antes, ficou apanhadinho do clima; jurou vingança e partiu para o Japão, treinando-se nas mais mortíferas técnicas ninja que combinou com a sua graciosidade de matador. O primeiro passo, no regresso, foi vingar-se do padrasto (já estão a  ver como) e daí em diante, ganhou nome no submundo como um assassino perigoso. Sendo um esteta, protegia o belo rosto com uma máscara (outro sinal da sua duplicidade) e tinha especial prazer em destruir pessoas feias e grosseironas. Assim, Vega tem um terceiro complexo (mais complexado do que ele é impossível, não há Dexter que lhe chegue aos calcanhares): o da vida dupla. Fidalgo elegante de dia, assassino sádico durante a noite. A fatal aura de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que resulta lindamente na ficção. Ou seja, é o epíteto do anti-herói requintado: elegante, belo e trágico. 
 Sempre imaginei como seria Vega se por acaso se apaixonasse por uma rapariga com tanto de bela como de insensata que, com mais ou menos ilusões, achasse que poderia  levar a cabo a tarefa impossível de o "consertar". Tenho a certeza de que alguém como ele ia envolver o objecto da sua afeição, inicialmente, num conto de fadas eufórico. Porque podia, pelo ambiente em que se move, e porque as pessoas excessivas são sempre assim: não sabem gostar de alguém com meios termos. No princípio ia ser tudo muito lindo, não tenho a mínima dúvida. Mas nem quando eu achava piada ao Streetfighter, nos bancos de liceu, alguma vez imaginei um final feliz para o hipotético casório do vilão com charme. Não tenho dúvidas de que ia ser uma relação-ringue. Em breve ia tornar-se sufocante e tempestuosa. Ele ia descontar nela todos os seus traumas, frustrações e paranóias. E ela  não ia compreender o que se estava a passar, demasiado envolvida nos seus sentimentos para pensar racionalmente. A desgraçada ia tentar segurar as pontas, pisar ovos, manter o pequeno mundo que tinha construído a todo o custo, aguentar o máximo de tempo que pudesse na arena, movida pela Síndrome de Estocolmo que se instala em "amores" destes. Sentindo que, se fizesse a coisa certa (fugir a sete pés antes do soar do gongo) estaria a falhar. Que a culpa do fracasso seria sua e não dele, o danificado de serviço. Acontece muito.
 Mas o que é preciso, em cenários assim, é compreender que a vitória não está no tempo que se aguenta, nos rounds que se conseguem suportar, e sim na rápida capacidade de saltar fora. Não há glória alguma em dizer " eu ainda fiquei por X tempo, fiz o melhor que pude..." e sim no raciocínio "percebi que algo não estava bem e corri como se fugisse do demónio em pessoa". Há que distinguir coragem de estupidez. E em ringues destes, só há vitórias vazias. Ainda por cima, poucos Vegas da vida se parecem com o da ficção. Nem essa piada têm. A melhor pontuação está em fazer um grande, brilhante e poderoso Game over -  e quanto mais cedo, melhor.





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