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Saturday, June 8, 2013

Dos maus passos

                           
                       

uns meses atrás, Sissi dixit:

" Há muitas maneiras de aprender, e uma delas é responsabilizar-se inteiramente pelas próprias decisões.  Ninguém nos pode proteger disso - por muito que familiares, mentores ou amigos queiram resguardar-nos de eventuais sofrimentos. Só assim se vive. Sou pela bela instituição da cabeçada, de meter o pé na argola, de cometer os próprios erros. Ou como se costuma dizer: não preciso de conselhos, para errar estou cá eu".

As pessoas ponderadas, que mantêm a sua impulsividade natural sob controle, podem dizer esse tipo de coisas porque  geralmente sabem até onde podem ir. Correm riscos calculados. Por muito que eu concorde que a Fortuna favorece os audazes, por mais que acredite no instinto, por muito que tenha mais coragem que miolos, nunca fui adepta de tomar decisões terrivelmente importantes de cabeça quente - ou de o fazer com frequência, pelo menos. Daí eu dizer tantas vezes que tenho pouquíssimos arrependimentos e que os poucos que tenho, são por coisas que não fiz. Mas chegam alturas em que nos cansamos de agir sempre da mesma maneira e decidimos agitar as coisas um bocadinho. Ver como é o mundo do outro lado da fronteira. Virar tudo ao contrário, fazer de propósito para arreliar os outros ou para contrariar o padrão vigente. Fazer como o Capuchinho, ir pelo lado errado da floresta e conversar com o lobo simpático aparentemente tão decente, tão íntegro, só porque os íntimos empertigados que nos rodeiam sempre nos disseram para não o fazer.
    As pessoas ponderadas, que correm riscos calculados, estão habituadas a cabeçadas calculadas também.  Sabem mais ou menos o que as espera, por se terem movido sempre nos mesmos circuitos. Ou seja, por exemplo: sabem que gostam de caril mas são alérgicas a caril. E uma vez por outra não resistem e zás, mandam vir um caril de camarão conscientes de que vão ficar com os olhos a chorar, o nariz a picar e os lábios numa lástima. É chato mas perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe e a desgraça não é grande, amanhã passa. O que não esperam é apanhar uma intoxicação monumental que as deixa de cama porque arriscaram comprar o caril não no sítio do costume, mas num restaurante manhoso na outra ponta da cidade onde usam um ingrediente ultra secreto nada recomendável. Riscos calculados implicam conhecer o território. Quando nos aventuramos em terra de ninguém não imaginamos a gravidade da cabeçada ou o impacto do tropeção em potencial. Maus passos acontecem sempre, e há que aprender com eles; maus passos dados num assomo parvo de rebeldia esses sim, costumam trazer arrependimentos. Porque não é só o trambolhão inicial para dentro do charco mas as ondas que se formam, com repercussões que nunca mais acabam, que comprometem assuntos que não tinham nada a ver, que trazem consequências que ninguém imaginava e que dão uma trabalheira a limpar. É a velha história: se nos afastamos do caminho que os Deuses destinaram para nós, o Universo dá-nos uma valente lamparina para nos pôr na ordem. E é muito bem feito.

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