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Monday, June 3, 2013

Eu tenho sempre razão, ou o complexo de Cassandra



Por vezes sinto-me como Cassandra, a princesa troiana amaldiçoada com um dom da profecia em que ninguém acreditava.  Para quem está esquecido, Apolo, o Deus da Verdade e da adivinhação (entre outros atributos) concebeu uma paixão ardente pela jovem, que era uma ruiva lindíssima, e prometeu que em troca do seu amor lhe ensinaria a ver o futuro. Ela concordou, mas depois (vá-se lá saber porquê) teve a impertinência de mudar de ideias. O Deus já não podia retirar o dom que lhe tinha concedido, por isso inventou um castigo muito mauzinho: ninguém acreditaria nas suas previsões, que se provavam sempre correctas...depois de as desgraças terem sucedido. Ela avisava, avisava, mas todos faziam ouvidos moucos. E depois ia-se a ver,  quem tinha razão o tempo todo? A  pobre Cassandra, claro.  Não só a infeliz era atormentada com visões terríveis, como não podia evitar o desenrolar das tragédias  - e para piorar tudo, ainda era tratada pela família com o desconto que se dá aos maluquinhos.
Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas, ou se preferirem...  eu tenho sempre razão. Vou colocar a premissa de forma mais modesta: só falo quando estou certa de ter razão; se estiver na dúvida remeto-me ao silêncio. E acima de tudo, nunca me queixo sem motivo. Quem convive comigo tem aprendido isto da maneira mais chata. Quando era pequena, apesar de ter as minhas birras como todas as crianças, raramente me queixava. Se eu dizia "doi-me isto" ou "estou maldisposta"  o caso era sério. As poucas vezes que acharam "isso não é nada", "estás é a fazer fitas para não comer" ou coisa semelhante, tiveram de marchar comigo para o hospital, até porque as minhas febres nunca foram assunto para brincadeiras...
 Ao longo da vida, isto foi acontecendo aqui e ali. Sucede-me avisar, avisar, na posse de todos os dados e mais alguns, com as certezas em papel selado, e certas pessoas acharem que estou a brincar, a exagerar ou que tenho um motivo obscuro qualquer para me alarmar com dada situação/pessoa. É claro que a seguir batem com o nariz na porta, a chatice acontece com consequências para todos incluindo para quem avisou (eu, eu, eu) e depois vêm dizer-me "olha, afinal tinhas razão" o que não é consolo absolutamente nenhum. É que se há vitória que dispenso é o prazer de dizer " hate to say I told you so". Tão escusadinho!

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