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Tuesday, June 11, 2013

Qual dama das Camélias, qual...

                                 

Equilibrar uma educação prática, a puxar para a assertividade (ou mesmo para uma certa fleuma) com um temperamento artístico e tempestuoso tem os seus quês. Adicione-se a isto uma paixão por tudo o que diga respeito ao século XIX (para não falar de épocas mais recuadas) e veja-se a complicação que foi ter, por um lado, o meu horror ao melodrama e ao "romantismo" barato (coraçõezinhos, frases feitas e luz de velas com saxofones como música de fundo tendem a enervar-me) e por outro, o fascínio por um tempo em que as senhoras desmaiavam, eram acometidas de febres emocionais provocadas por desgostos de amor, a morbidez ultra romântica estilo O Noivado do Sepulcro estava na moda e "entisicar" era encarado com pavor, mas também como afirmação de estilo. As meninas enchiam-se de pó-de-arroz, bebiam vinagre e petiscavam barro ou areia para ganhar um ar devidamente "consumido" e etéreo, a fazer lembrar a lânguida Dama das Camélias. 
A "peste branca" grassava por toda a parte e parecia preferir vítimas jovens, bonitas ou talentosas - Balzac, Chopin, os irmãos Brontë, John Keats, a Princesa Amélia, e tantas outras - o que associado a certos sintomas, como uma sensibilidade extrema, lhe conferia uma aura de glamour. As histórias de noivados desfeitos pelas garras da terrível doença eram muito comuns, dando origem a canções e poemas trágicos que celebravam as núpcias rompidas no auge da paixão pelo inimigo silencioso. Só com o auge da Revolução Industrial a tuberculose perdeu um pouco do seu dramático élan.
 Costumo dizer que nasci na época errada, mas que se calhar foi sorte porque se tivesse vindo ao mundo nesse tempo não havia de durar muito. O mais certo era acabar como heroína de um romance de cordel qualquer, vendido pelas esquinas. Não sou afecta a desmaios (creio para isso precisaria da ajuda do espartilho, como as senhoras da altura) com certa pena porque uma pessoa vê coisas que mais valia desmaiar logo e não pensava mais nisso. Em compensação, um dos meus poucos achaques é tiradinho de 1800 e pico: se tenho um desgosto, zás, já se sabe que a febre não tarda e não há médico que me acuda (foi sempre assim, é feitio e em pleno século XXI só conheço outra pessoa como eu, também ela dramática que chegue). E naquele tempo não havia Ben-u-rons nem nada parecido, era sofrer e fosse o que Deus quisesse. As doenças psicossomáticas eram bem mais ameaçadoras do que hoje, olhem lá a Luizinha d´O Primo Basílio.
      Claro que agora não tem o mesmo chic dizer-se, com os olhos em alvo e ar espiritual "tive uma febre cerebral, não vou trabalhar hoje...preciso de umas semanas a caldinhos e chocolate quente para me restabelecer". O mais certo é pregarmos um susto a alguém, sermos dados como maluquinhos ou pior, despedidos. Quanto mais uma senhora desmaiar; querem lá saber que desmaie, que é coisa associada a velhotas cheias de maleitas e não a jovens vigorosas, na flor da vida.  Em última análise as meninas de hoje já não sabem desmaiar com decência- o cenário inevitável era caírem com uma perna para cada lado, de boca aberta e olhos virados, uma coisa feia que só visto.
O sofrimento não é propriamente glamouroso nos dias politicamente correctos e com solução para tudo  que correm. Exceptuando a depressão, que já esteve mais na moda do que agora e que com a crise se banalizou o mais possível, ou a gota que ainda vai sendo a doença dos lordes, não há espaço para badagaios elegantes. Experimentem lá dizer "oh Meu Deus, ando tão desgostosa, sinto-me a morrer por dentro, a entisicar". Tão correcto como eu estar aqui, pensariam que moravam nalgum lugar infecto, mandavam-vos, literalmente, desinfectar e tomar uma carga de antibióticos, que graças a Deus a tísica hoje tem cura nos países desenvolvidos. Valha-nos que se descobriram os malefícios do sol e a pele pálida, se não ficou "em voga" pelo menos tornou-se aceitável. Claro que estadias prolongadas em Itália ou na Madeira, para "refazer forças" estão um pouco fora de moda para o comum dos mortais (e mesmo para os outros: a vida é cada vez mais frenética e há pouca paciência para passar um Verão inteiro no mesmo sítio). O nosso século pode ser mais saudável (se descontarmos certas "modas" excessivas no que respeita à forma física) mas também muito mais sem graça. Claro que podemos sempre evocar, numa vibe gótica, o romantismo do século XIX, mas não tem a mesma piada. Tragam-me lá o caldinho, ou já não sabem o que isso é, ao menos?


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