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Friday, June 28, 2013

Ter classe no infortúnio, isso sim é obra.

                                           
  • -  They will laugh at you. And in that hat.
  • -  I will not hide myself away any longer. I may be poor. I am the Princess Vera Artalinovna Belinskya.
  • Vanessa Redgrave como Princesa Vera Belinskya, em "The White Countess"

  • Talvez por ter tido (feliz ou infelizmente) alguns exemplos na família, poucas coisas me despertam tanto respeito e admiração como as pessoas que se nota terem conhecido melhores dias. Ou seja, aqueles entes cada vez mais raros que foram educados com certos confortos e privilégios mas a quem a ruína, a guerra ou a pouca sorte atingiu - e que mantêm, não obstante, uma classe à prova de bala. Nota-se na forma como se expressam, como se movem, no seu porte, na bela apresentação ainda que as roupas estejam gastas ou fora de moda, na solidariedade e elegância que manifestam para com os mais desfavorecidos. Não há nada como uma trágica história de rags to riches para pôr à prova as raízes de cada um. Porque o dinheiro pode comprar bons colégios, bons cirurgiões plásticos, roupas caras (não necessariamente boas) mas há coisas que não estão à venda, nascem com cada um e vão sendo reforçadas todos os dias, de pequenino. É preciso muito auto-domínio  muita disciplina, muita consciência do seu verdadeiro lugar neste mundo para não fazer depender a forma de estar das circunstâncias externas. É fácil dar-se grandes ares quando se vive rodeado de coisas bonitas (tudo ajuda) e quanto mais recente o luxo e o esplendor, mais fácil é cair na arrogância ou em propósitos ridículos - vê-se muito  em quem "sobe na vida" repentinamente a mania de maltratar quem está abaixo, exemplo já amplamente discutido aqui. O contrário é que é uma prova de fogo: ter sido habituado a um dado padrão de vida e/ou a um certo estatuto, para depois se ver privado disso tudo, muitas vezes reduzido (a) a uma posição humilde ou a uma situação humilhante (quantas grandes personagens se viram forçadas a servir quem não era digno de lhes engraxar as botas?) e não cair na ganância, na avidez grosseira, na boçalidade, na maldade ou na baixeza abjecta é realmente admirável. A serenidade, a alegria mesmo perante os cenários mais negros, a altivez sem pedantismo, a capacidade de partilha com quem sofre ainda mais do que nós, a dignidade, ser demasiado educado para fugir ou para se queixar e o orgulho nativo são características raras - mas quem as tem, dificilmente as perde. Na felicidade, é fácil ser bom. É nos momentos de provação ou de conflito que a grandeza é testada. Após a Revolução Russa, que conseguiu aniquilar (ou pelo menos, dispersar) toda a aristocracia daquele enorme país, os seus representantes fixaram-se um pouco por toda a parte. Muitos jamais conseguiram recuperar o seu antigo modo de vida. E apesar do terror, da perda de tudo o que possuíam, muitos houve que - a trabalhar como taxistas, criadas e modistas - davam-se por felizes por terem conservado a vida e terem trabalho. Encaravam a infelicidade com um sorriso no rosto. Alguns disseram mesmo compreender que toda aquela violência os atingira por terem sido eles, ou os seus antepassados, a oprimir os servos em primeiro lugar. A resignação, o perdão, são próprios de quem sabe que Deus dá e Deus tira...conceito que não é fácil de assimilar. Sou pela honra e pela reparação, mas a magnanimidade é maior ainda.
                                            .
    File:Madame Royale5.jpgRecordo-me de dois livros infantis que apreciei particularmente. A um deles perdi-lhe o rasto, mas lembro-me que falava de um pequeno fidalgo arruinado que, apesar da sua grande necessidade, recusava aceitar dinheiro a um ricaço para o ajudar a fazer já não sei o quê. " Não sou ainda tão pobre que não possa prestar um favor", respondeu ele. Nunca me esqueci desta frase. O outro, A Princesinha, de Frances Burnett, é um dos meus livros favoritos e gira precisamente em torno desse tema. Diz Sarah, a infeliz protagonista " Maria Antonieta sempre me pareceu muito mais rainha na desgraça do que quando vivia feliz e alegre no meio da sua corte". E falando em Maria Antonieta, o que dizer do discurso da sua filha, Marie-Thérese Charlotte, quando soube do atroz destino da família?
    Marie-Thérèse-Charlotte est la plus malheureuse personne du monde. (...) Ô mon père, veillez sur moi du haut du Ciel. Ô mon Dieu, pardonnez à ceux qui ont fait souffrir mes parents!
    ("Marie-Thérèse Charlotte é a pessoa mais infeliz deste mundo. Ó Pai do Céu, vela por mim! Oh meu Deus, perdoa àqueles que fizeram os meus pais sofrer!")
    Com grande pena minha, estas obras edificantes são cada vez menos transmitidas às crianças...




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