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Friday, July 5, 2013

A beleza (e a nostalgia) dos revivalismos


 
O estilo ladylike, o regresso dos scarpins/stilettos e os sheath dresses têm sido temas recorrentes no IS, por duas razões: são dos looks e peças que mais aprecio (por serem eternos, infalíveis, versáteis e exigirem uma certa qualidade para resultar como devem) e com mais significado emocional para mim. 
 Os scarpins, em especial, trazem-me boas recordações. Dos anos de faculdade, no limbo entre alguma actividade profissional e a vida social mais intensa (e despreocupada) que levava com o meu grupo de amigos, metade dos quais eram primos porque sempre acreditei que estamos melhor com o nosso clã. Já na altura tinha o defeito de pensar demasiado, nunca fui inconsciente (o que me torna muitíssimo chata...) logo, não caio no erro de julgar que esses foram tempos melhores - antes pelo contrário.  Mas naquela altura as perspectivas e as surpresas eram outras. As inocentes alegrias, os passeios, as peripécias de namoricos coscuvilhadas no café, o planear cuidadoso das toilettes.  E o sofrimento nos pés também - porque as tendências ditavam que só os stilettos e as biqueiras mais ou menos aguçadas eram aceitáveis. Para cúmulo, na altura vivia no centro da cidade; podia ir a pé para toda a parte  orgulhosamente em cima dos meus saltos altos, a tropeçar nos paralelos horrorosos que o empreiteiro tinha decidido colocar à porta do prédio todo fashion (Deus me livre, já vos falei dele) onde eu morava. Chegar a casa era um calvário. Foram cerca de dois anos dolorosos - e de felicidade para o sapateiro, com capas a saltar todas as santas semanas -  até regressarem, timidamente, as primeiras plataformas e saltos compensados. Nessa altura entendi como as bailarinas se sentem. Sair e passar metade da noite encostada ou a suspirar por um banco, a repetir o mantra "uma senhora não sente dor, fome, frio, nem calor - para bela ser, sofrer!". Só a inconsciência da idade permitia tais disparates. Comecei a ganhar juízo, a ver a pinderiquice disso tudo e hoje, como vos tenho dito, guardo os saltos mais altos e finos, ou qualquer coisa que desequilibre a gravidade ou a estabilidade, para ocasiões especiais e breves. Também descobri que o melhor é alternar os compensados com os scarpins (andar com o pé junto ao chão pode ser muito mais confortável do que uma plataforma rígida e instável)  e hoje - felizmente - as tendências tornaram-se mais variadas. Foram buscar inspiração a épocas diferentes, o que se reflecte no mercado. Significa isto que, a bem do nosso estilo (nada pior do que andar sempre na mesma) conforto e saúde, podemos mais facilmente variar as silhuetas e os moldes. Em tão poucos anos, as opções diversificaram-se imenso. Nós evoluímos e a moda, como fenómeno social que é, evolui connosco. Não sei quanto a vocês, mas a reinterpretação de tendências passadas parece-me quase sempre mais interessante (mais "usável", e menos exagerada) do que o original. Lá porque algo volta a estar na berra, não quer dizer que seja aconselhável usá-lo exactamente da mesma maneira. As solas e os saltos finos (sejam altos, médios ou kitten)  voltam ao meu closet com pompa e circunstância. Creio mesmo que estou ligeiramente obcecada por eles, a ir buscar os modelos antigos e uns cinco pares novos até à data,  número com tendência a aumentar. Curiosamente, algumas actividades, amizades e coincidências dessa época reintensificaram-se na minha vida também. Mas certas coisas que acompanhavam tudo isso -alguma teimosia, alguma ingenuidade e disparates como as cinturas demasiado descaídas que nos obrigavam a malabarismos a bem da decência - ficam onde pertencem. Algures entre 2004 e 2007. Certas coisas estão melhor no passado.

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