Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, July 30, 2013

Ode à impaciência, aos Calimeros e aos que ficaram presos no passado. Gente chata, em suma.

                                  

Deve ser do stress que antecede as férias, quando tudo decide acontecer ao mesmo tempo: ontem dei por mim, altas horas da noite, a pensar na agenda, com receio de deixar passar a correr os dias disponíveis sem fazer a devida honra às tarefas, compromissos, passeios, visitas e obrigações que me esperam. Tive de dizer a mim mesma para parar com o disparate, porque tinha de me levantar cedo - e era estúpido perder o sono por motivos tão corriqueiros. Depois, não sei se é de mim, que preciso de desligar o chip observador por uns tempos ou mandá-lo desafinar, pois está especialmente apurado...ou se todos os "tipos" que pedem uma caracterização cáustica decidiram atravessar-se no meu caminho: os Dâmasos Salcedes, os Uriah Heeps, os Conselheiros Acácios, os Mr. Collins e tantos outros retratos ridículos saídos direitinhos das páginas dos livros para a vida real sucedem-se e eu, que prefiro mil vezes falar bem do que mal, tenho sérias dificuldades em isolar o meu espírito crítico, o lado negro da minha pena, a impaciência para com o meu semelhante. Logo eu, que não gosto de gente amarga e rezingona, 
acho-me de tal maneira mordaz que, passe a arrogância da metáfora, Oscar Wilde me correria da sala a pontapés. Estou, em suma, a reparar em cada vez mais tipos de pessoas para quem não tenho tolerância. Ora tende lá paciência comigo, porque a vida não é justa e se também estais impacientes, parai de ler e até amanhã:

- Os que se fazem de pobrezinhos, ou adoram contar como eram pobrezinhos. E cantar louvores a como uma certa Revolução que já tem barbas a chegar ao chão lhes mudou a vida, e lamentar que essa revolução foi mal aproveitada, e todo esse discurso chalado.

Porque não há nada mais feio do que ser miserabilista. A pobreza não é vergonha mas também não é nenhum orgulho; e depois, a vida anda para a frente e não para trás. Pior ainda é quando alguém até não teve um começo tão mau como isso mas adora fazer de Calimero ou de Floribela, rebaixando-se a si mesmo e aos parentes que não têm culpa de ter um Calimero na família. Cada um tem o começo que Deus lhe deu e não há que escondê-lo; o self made man, se tem os seus defeitos, tem também as suas virtudes. Mas o mais curioso é que os self made men (e women, vá) bem sucedidos que conheço poderão ter os seus novos riquismos que não fazem o meu género, mas raramente falam em como eram tão pobrezinhos. Sabem porquê? Porque são pessoas ocupadas, com vidas preenchidas e que se fartam de trabalhar. Falta-lhes tempo para pensar no que já lá vai e para contar parvoíces de puxar à lágrima.

- Os taradinhos da utopia. Uns são esquerda de caviar que decidiram chatear o pai e a mãe, que arreliar a parentela é sempre giro mesmo que já se vá nos cinquenta e em posição de ter obrigações. Outros são mais sinceros lá à sua maneira mas não devem gostar de História, logo ninguém os avisou que as suas ideias já começavam a cheirar a esturro em meados de 1989, que até caiu um muro por causa disso, que hoje em dia ninguém sabe exactamente para que lado fica o proletariado porque para o bem e para o mal quase toda a gente trabalha, que o capitalismo não é para ser chamado a propósito de tudo e de nada, que a "luta de classes" não pode trazer nada de bom porque só o nome diz tudo - vai lá uma pessoa governar-se com base em ressentimentos e invejinhas -  e que as utopias são difíceis de pôr a funcionar. Falharam quase todas (e ainda bem...eram uns infernos de primeira água) pelo simples motivo de o ser humano estar programado como indivíduo, não para funcionar aos magotes. É impossível pôr toda a gente a pensar da mesma maneira, a querer exactamente as mesmas coisas. Mas pronto, eles lá continuam a cantar o Imagine (o paraíso de John Lennon dava um post) que eu cá fico na minha, prevenida com naftalina pelo sim, pelo não...

- As pessoas bem intencionadas, coitadas, que adoram "famosos". A televisão generalista, quanto a mim foi chão que já deu uvas, mas para estas pessoas quem teve os seus quinze minutos, nem que tenha sido há vinte anos é lindo, é famoso, é celebridade, nada a fazer. Em vão uma pessoa lhes diz que isso já lá vai, que os tempos são outros, que a "Fama" sem proveito é uma chatice. Debalde. É famoso, é lindo, "lembra-se de quando...?". E eu fico como a nossa querida Beatriz Costa: "ó minha senhora, não me fale no passado. Fale-me em flores a desabrochar, crianças a nascer...". 

Gente assim faz-se velha, e passa a peçonha da decrepitude a quem está.

É certo que saudosismos cada um tem os seus. Mas há cada saudosismo que faz favor. A ter nostalgia que seja de tempos de raça, de beleza, de tradição. De coisas giras, que nos dêem alegria para agarrar o futuro. Quem não tem passado, não tem futuro, mas o que lá vai não deve servir de desculpa para envenenar o presente e o resto...acho eu.






No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...