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Monday, July 29, 2013

Paula Bobone dixit: da necessidade imperiosa de protagonismo, de "ter mundo" ...e outros quês

                         

"(...) essas pessoas gostam de estar de tal maneira em evidência que «tanto lhes faz ser a noiva no casamento como o morto no enterro»".

"Ter mundo tem uma conotação positiva que traduz um conhecimento vasto e uma capacidade de mobilidade nos vários círculos sociais, denotando em cada um deles um mesmo e diversificado savoir faire. Alguém que «tem mundo» não se deslumbra com aquilo que é naturalmente bom e belo, sabe reter uma crítica óbvia, que por isso não necessita ser expressa. Alguém que «tem mundo» é e vale pelo facto de ser e é reconhecido como tal sem precisar de o afirmar. Tal poder simbólico tem um valor durável, é de uma alta eficácia e por isso só se encontra nos melhores".

Quem tiver um bocadinho (não é preciso muito) de "mundo", sensibilidade e educação aliados a alguma atenção ao que o rodeia - qualidade que acarreta inevitáveis dores de cabeça, pois muitas vezes repara-se em aspectos e subtilezas que mais valia passarem-nos despercebidos - nota rapidamente  dois tipos de carácter desagradáveis, que muitas vezes caminham juntos.
    Falo das pessoas que adoram ouvir-se a si mesmas, intervir, chamar a atenção sobre si próprias, levar palmadinhas nas costas, que morrem por um poucochinho que seja de protagonismo, de atenção, e que mesmo que disfarcem a sua avidez de fama (nem que seja a fama lá na paróquia)  se descabelam por exibir os seus feitos, ter a palavra em todos os eventos, não deixar falar os outros ( a não ser o convidado de honra, porque lhes convém, e mesmo assim contrariados) fazer-se à fotografia, gabar-se de cada suspiro que dão. Todos já tivemos a infelicidade de cruzar caminho com criaturas destas: o colega chato que prolonga ad nauseam uma reunião que duraria meia hora se ele não insistisse em dissertar sobre coisa nenhuma, fazendo perder tempo a toda a gente; o pateta que adora debates gratuitos; o figurão lá da terrinha que tem de se envolver em tudo, e tem de aparecer no jornal, etc; a beata que já que não manda em mais nada, entende comandar a Igreja do bairro e aterrorizar os escuteiros, com ou sem beneplácito do pároco. São pessoas com um ego do tamanho do mundo, que precisam de massagens e elogios constantes - e já que ninguém lhes dá troco, nem os lisonjeia, tomam o assunto nas próprias mãos.
 Este defeito está muitas vezes associado à "falta de mundo": a uma mentalidade estreita, a uma vida pequenina - porque só quem nunca teve nada pode valorizar tanto coisas insignificantes, "vitórias" mesquinhas. 
     Consigo lidar com muita coisa no meu semelhante, mas a "falta de mundo" não é uma delas. Uma certa ingenuidade pode ter o seu encanto, mas deve vir acompanhada de modéstia e bondade. Ou bem que se é naïve, com uma genuína falta de afectação e artifício que compensa a ausência de requinte, ou bem que se é razoavelmente vivido, educado, sofisticado. Não se pode ter as duas coisas; quando assim é, o resultado é geralmente desastroso. Não há nada pior do que o ressabiado ambicioso que quer ascender socialmente ("subir na vida, como gosta de dizer) mas não sabe estar em lado nenhum. Ou antes, só se sente realmente à vontade no meio de onde deseja sair...
Qualquer convite, qualquer associação vantajosa o deslumbra; deixa-o nervoso, em ânsias; a menor hipótese de brilhar envaidece-o a pontos de o tornar intolerável. Perante um superior, só tem meia dúzia de reacções possíveis: o detestável temor reverencial, a bajulação, a inveja, a curiosidade indiscreta ou o salamaleque. Inevitavelmente comete gaffes, mas não tem a humildade para encaixar qualquer reparo - os traumas de classe vêem invariavelmente à tona, e lá se vai a abjecta vontade de agradar. Não sabe ter naturalidade em parte alguma; tudo o deslumbra, tudo o melindra, tudo o deixa em êxtase. É incapaz de sprezzatura, de subtileza, de discrição, de se misturar discretamente; quer tudo para ontem, acha que tudo lhe é devido. E não tendo "mundo", nem patine, possuindo só a avidez e uma atroz falta de noção que só o "mundo" dá, o engano dura muito pouco. Entre o "bom selvagem" e o "carroceiro com casaca de cavalheiro", entre a "Maria Cachucha" e a "varina feita viscondessa" venham sem dúvida os primeiros. 
  Não há paciência para o falso verniz.

4 comments:

Chau said...

Simplesmente criaturas fúteis...

Chau said...

Simplesmente criaturas fúteis...

menina lamparina said...

Tão perfeito que tenho que partilhar! :*

Imperatriz Sissi said...

Grazie, dear :*

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