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Sunday, August 18, 2013

As boas "lojas de modas" de Coimbra

                                                   

Vamos imaginar que eu, com a minha grande paixão pela moda e moderado faro para o negócio (saio ao meu avoengo dândi com, graças a Deus, um bocadinho mais de juízo) me tornava, de repente, um nababo de saltos altos. Que me saía assim, sei lá, um daqueles jackpots mesmo grandes do euromilhões (não seria sensato aplicar um primeiro prémio "normal" numa grande aventura, não tenho espírito para derreter fortunas, o meu dandismo e desprendimento não vão tão longe que os tempos são outros). Sabem um investimento que eu achava genial? Era ressuscitar o bom comércio na minha cidade. É uma dor de alma passear pelo Chiado, ou pela Baixa do Porto, com o seu charme old fashioned, e voltar à Baixa de Coimbra para a encontrar no estado em que está. Em rodas de amigos, tenho dito que urge chamar à Baixa algumas boas cadeias de lojas e restaurantes, além de, como é óbvio, entregar parte dos fogos existentes a pessoas jovens e empreendedoras. Fazer uma chiadização ou prínciperealização da Baixa coimbrã. Pô-la no mapa ou, para usar um termo que não é my cup of tea, torná-la in
 Afinal, são tantas as recordações das boas "lojas de modas" de Coimbra - umas minhas, já dos seus últimos anos, outras relatadas por pessoas da nossa família ou amizade. Adorava acompanhar os meus pais às compras ou abrir os sacos que traziam dessas casas que primavam pelos bonitos espaços de vários andares e secções e pelo serviço mais atencioso: o Eldorado, que no final dos anos 60 trouxe para Coimbra ( tal como a Loja das Meias em Lisboa) as marcas tradicionais de jeans, com enorme sucesso, e se tornou um verdadeiro e inovador "templo da moda". O que aquelas empregadas, quase todas com formação em costura (o último andar era um atelier para os arranjos) percebiam de denim! Quando andava na escola, ainda cheguei a comprar lá boa parte dos meus jeans e peças com as marcas do momento. O mesmo proprietário abriu a Infinito, com um conceito semelhante mas mais arrojado e alternativo. Olhando para trás, era um pouco como uma Bershka em versão chic. As Modas Veiga, que eram um mini Harrod´s cá do sítio, não estou a brincar (vide a reportagem). Não tinham artigos tão adequados à minha idade, mas achava o máximo ver as estantes dos chapéus e os vestidos de cocktail, ou observar,  fascinada, enquanto o alfaiate marcava a giz os fatos do papá, que se iam buscar uns dias depois. Hoje poucas lojas (a referida Loja das Meias é uma delas, e mesmo assim creio que o serviço está reduzido à moda masculina) têm a dupla componente de confecção e prêt a porter - ou, como por cá se dizia orgulhosamente, "pronto a vestir!". Havia também o mítico  Último Figurino, espaço elegante que fazia as delícias das senhoras bem da nossa praça e da qual ainda guardo alguns sacos (e roupas, incluindo casacos de peles, com etiqueta própria) . O nome era uma delícia, mais retro não podia ser, e a loja também. Para enxovais e cerimónia, a crème de la crème era a sucursal da Tito Cunha, onde a senhora minha mãe comprou a tiara, o tecido e as luvas para o casamento. Tinham adereços lindos, conta ela, e os vestidos eram uma maravilha. Fechou quando eu era pequena e as "lojas de noivas" de hoje não têm nem de perto nem de longe o mesmo cachet. Havia também a Loja das Meias local, que, tanto quanto sei, não tem relação com a cadeia lisboeta mas continua a vender marcas de confiança.
 Se queríamos roupa de designer com um toque avant garde, a Aba Larga era o sítio onde procurar. Essa loja sim, ainda existe no mesmo local (mantém também o espaço na Cruz de Celas, perto de outros excelentes pontos multimarcas da cidade) mas com muita pena minha, não está presente, por exemplo, nas redes sociais nem tem loja online. Digo isto porque é de lamentar que um ponto de venda icónico da cidade não tenha uma relação mais emocional com as consumidoras. Passaria por lá mais vezes se me lembrasse, nesta época de constantes estímulos e fast fashion à mão de semear. Recordo um dos meus primeiros Little Black Dresses, que veio de lá (rodado, estilo "New Look") dois conjuntos dos quais quem me dera não me ter desfeito e as manobras da minha melhor amiga para que a avó lhe oferecesse um vestido Jean Paul Gaultier com motivos egípcios que estava na montra. Veio, claro.
  Não passou assim tanto tempo, mas a  forma de comprar era outra: não se ia às lojas num pulo, as compras por impulso eram mais raras e nada saía do estabelecimento sem ser provado e adaptado à medida. Tudo era mais personalizado e com todo um ambiente. Por vezes ia-se almoçar e regressava-se à tarde para apanhar as compras, o que constituía  um ritual - que as idas ao centro comercial reproduzem, mas não com a mesma graça. 
 O Chiado provou que em Portugal ainda podemos ter o melhor dos dois mundos: as compras "de ontem" complementadas com as "de hoje". Porque não aqui?




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