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Thursday, August 8, 2013

Sinceridade x delicadeza

A Princesa Grace e Jackie Kennedy
 Por estes dias falou-se aqui de elegância, sendo que para mim, o aspecto mais difícil da mesma é equilibrar saudavelmente o sentido de honra (sem dignidade e pundonor não pode haver elegância) com a indulgência para com os outros e a capacidade de relativizar as ofensas, rindo delas se for preciso. Afinal, quem não se sente não é filho de boa gente, mas ninguém gosta de estar perto de pessoas amargas, rezingonas, que guardam rancores por tudo e por nada. Só quem se tem em demasiada conta se melindra com facilidade. Usar de graciosidade, magnanimidade e o poder de não levar as pessoas (incluindo a si mesmo) demasiado a sério sem no entanto se tornar num alvo fácil é um equilíbrio delicado, que custa muito a conseguir. 
 Mas volto à mesma reflexão - a elegância, ainda que possa ser inata, exige exercício, prática e atenção constante. Antes de observar o comportamento alheio, devemos ser duplamente exigentes com as nossas próprias atitudes, o que requer modéstia e auto análise. "Sede vigilantes", diz o Bom Livro...e isso também se aplica ao saber estar no quotidiano.

  Outro ponto sensível do comportamento elegante é a sinceridade, a franqueza, a honestidade. Tem sido dito aqui no IS que poucas coisas dizem tanto da educação de alguém como o saber estar à vontade em toda a parte (mesmo em meios muito diferentes daquele que habitualmente se frequenta) sem acanhamento, espanto, deslumbramento, entusiasmo ridículo, temor reverencial ou pelo contrário, arrogância, atrevimento, excesso de ousadia ou atitudes defensivas. É sempre de evitar chamar a atenção sobre si próprio. A simplicidade - desde que discreta - e a serenidade caem bem em qualquer lado. Quando na dúvida, um silêncio gracioso, um gesto de assentimento ou responder a uma pergunta com outra pergunta inócua podem afastar a mais desagradável das gaffes. Revelar demasiado é desaconselhável por várias razões.
 O que nos leva ao cerne da questão: quanta sinceridade é recomendável?
Quem diz a verdade não merece castigo. Porém, em ocasiões sociais de alguma superficialidade, a melhor orientação será "se não tiver nada de agradável para dizer, remeta-se ao silêncio". Emma, a personagem de Jane Austen, dizia invariavelmente da rival com quem embirrava, Jane Fairfax "se me perguntarem, digo apenas que ela é elegante". Problema resolvido; não faltava à verdade, não caía mal e ninguém perguntava mais detalhes...
 Se for mesmo impossível mascarar o que pensa sem que isso constitua uma mentira óbvia, uma resposta sincera, mas curta, que não entre em maledicências, é a única saída. Com sorte, tê-la-ão por uma pessoa espirituosa, que diz sempre o que pensa...
 Caso numa circunstância igualmente superficial uma senhora diga mal de si mesma, por brincadeira, esperando obviamente ouvir o contrário ("fico tão gorda neste vestido", por exemplo) ou tenha o mau gosto de apontar falhas a outra pessoa presente ou não, o remédio é procurar, sem contradizer, um aspecto agradável que possa ser realçado...ou mudar de assunto. "Essa cor é tão rica, gosto tanto, vai tão bem aos seus olhos..." porque não há quem não fique contente por ouvir falar de si próprio nos melhores termos!
 Com os nossos amigos chegados, a história é mais complexa. 
Quando dizer a verdade, e quando cair na boa e velha "mentira piedosa?"
Não pretendo ser um guru na matéria, mas a experiência ensinou-me que a única resposta possível é "ambas, quando for preciso". 
 É de evitar magoar os nossos amigos com excesso de franqueza, mas a longo prazo, fugir à verdade não traz nada de bom a ambas as partes. Como dizem os sicilianos, "só os verdadeiros amigos nos avisam quando temos a cara suja". Muitas vezes, a única abordagem é arranjar a forma mais delicada e carinhosa de mostrar à pessoa que de facto...

- precisa de dieta
- não está a agir correctamente.
- foi ofensiva para connosco.

etc.

As verdadeiras amizades resistem às opiniões honestas ou mesmo a raspanetes, desde que haja tacto. E se não resistirem, bem...é porque não são amizades que valham a pena, trazendo desgostos mais cedo ou mais tarde.

A melhor unidade de medida para saber quando falar ou não é perguntar-se: quão insuportável é esta situação? Já dei todas as indirectas que podia sem ferir? Se sim...é altura de ser brutalmente honesto (a)!

La está: equilibrar tolerância e honestidade, perdão e jogo de cintura é um exercício complicado. Mas a tudo se impõe o bom e velho bom senso...








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