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Thursday, September 26, 2013

As armadilhas da pureza‏

                                           
Com uma figura angelical, um porte senhoril  e uma escolha de papéis (de freira, de Joana D´Arc...) que a faziam parecer, aos olhos do público, como uma santa, a actriz Ingrid Bergman enfrentou a reprovação dos seus admiradores quando decidiu abandonar o marido para casar com Roselinni. A sua persona nas telas e as personagens que interpretara  tinham-lhe conferido uma aura seráfica, muito acima dos erros e do lado feio da vida - e ninguém lhe queria perdoar o `deslize´. "As pessoas declararam-me uma santa mas eu era só uma mulher, um ser humano" contaria ela mais tarde.

No caso de Ingrid, tratava-se de um fenómeno que ainda hoje se verifica mas que nos dias dourados de Hollywood (quando as actrizes não ganhavam óscares por ser "versáteis" ou engordarem para um papel) era muito mais comum: a colagem a papéis - tipo, a uma certa imagem pública que nem sempre fazia perfeito consenso com a vida privada. Ninguém se escandalizaria, por exemplo, com os disparates da tentadora Ava Gardner. Ter o rótulo de perfeição e não agir como, por exemplo, Grace Kelly, isso já era outra história.

As mulheres comuns não correm o risco de desiludir uma audiência tão grande, mas a reputação imbeliscável continua a ser um atributo - em certos meios e para certas pessoas, pelo menos. A velha máxima "vícios privados, públicas virtudes" é, para quem recebeu uma educação tradicional (e/ou necessita, social ou profissionalmente, de uma imagem irrepreensível) elevada a extrema virtude em público, mínimos vícios, se alguns, privados". À mulher de César não basta ser séria...e sejamos francos, quem foi educada de certa maneira e desenvolveu uma forma serena de estar não tem grande coisa a esconder, nem dificuldade em ser "séria" - o que quer que isso possa significar hoje em dia. 

Nos tempos atribulados que atravessamos uma mulher de valores um bocadinho mais arcaicos, que vista de forma elegante mas modesta, que seja discreta, saia pouco e namore menos ainda pode facilmente ganhar a exigente medalha de virtude.

 Deus defenda uma mulher de quem a idealiza  - ou do César que resolve, sem mais aquelas, idealizá-la.  É um daqueles casos típicos " pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira". Uma palavra fora do sítio, um acto menos pensado, uma pequena retaliação, o mínimo erro pode manchar a imagem pura, o ícone da santa. 

Das outras mulheres, não se espera grande coisa, podem enganar-se ou errar como toda a gente.

A uma santa não se perdoa nada. Porque uma santa  - mesmo que a única coisa que tenha feito para ganhar essa imagem seja ser discreta e igual a si própria - é constantemente submetida a provas, ao escrutínio. Os milagres e a perfeição causam sempre a incredulidade. Se nenhum Santo alcança esse estatuto sem passar pelo advogado do diabo, que farão as mulheres que têm a pouca sorte de se limitar parecê-lo?

E em última análise, por mais que a  própria "santa" seja sincera na forma como se apresenta, não quer ser  mantida em permanente julgamento. O público só conhece o que lhe mostram, e tem a opinião fácil - das pessoas íntimas espera-se outra compreensão e um bocadinho menos de idealismo. Deseja-se o velho "I take you just the way you are" porque quem ama aceita o belo e o feio, a santidade e a transgressão, o branco e o negro, a luz e as trevas. Se assim não for, não é amor, é vaidade.

3 comments:

Jose Carmo said...

" quem ama aceita o belo e o feio, a santidade e a transgressão, o branco e o negro, a luz e as trevas. Se assim não for, não é amor, é vaidade."

O amor é cego...enquanto os olhos estão protegidos pelo filtro da paixão. Mas assim que o filtro começa a falhar, tudo isso importa muito. E não tem de ser vaidade, pode mesmo ser desilusão. Mas só se desilude quem se ilude. Não é uma equação fácil....a paixão resulta sempre da idealização, mas esta não se pode manter se exigir demais. Não convém exagerar, nem na idealização, nem na vulgarização. Colocar uma aura de santidade no outro é palermice, mas catar-lhe os piolhos tb. Há coisas que convém manter num plano de privacidade. Por exemplo, é muito politicamente correcto, hoje em dia, os homens assistirem ao parto. E já alguém estudou como fica a líbido do infeliz, depois de assistir a uma coisa daquelas? Ou muito me engano ou anda para aí muito rapaz com grandes dificuldades para olhar para a companheira como mulher...

Imperatriz Sissi said...

José, alguma idealização/mistério é necessária para a paixão, o sonho. Mas há as exigências para que uma relação funcione (chama-se compromisso) e o exigir o impossível, dando por vezes muito pouco em troca. Já isso dos partos...não podia estar mais de acordo. Há coisas que são assunto de mulheres, os homens só atrapalham e a não ser em caso de emergência, não vejo a necessidade. Acho que um homem não deve ver uma mulher de rolos na cabea, quanto mais! Mas lá está, eu sou old school.

Jose Carmo said...

Totalmente de acordo.

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