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Monday, September 2, 2013

Da redenção

                                      


Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. 
Mas dizei uma só palavra e meu servo será curado.

                                                                                 Mateus 8,8


Devoções cada um tem as suas. Em termos de mitologia ou do universo (salvo seja) Católico as que mais me atraem relacionam-se com a reparação, a sublimação (exemplo disso são as vias sacras, que em pequena me fascinavam) com  entidades guerreiras ( S. Jorge, S. Miguel, Santa Marta) obscuras ou  extremas - Hécate, N.S. Bonfim, Boa Morte, Santa Morte - porque apenas encarando de frente os medos, a escuridão, é possível sair vitorioso.  Em alguns caminhos espirituais, diz-se que só certas pessoas, em certas fases da vida, são capazes de trabalhar com esse tipo de energia tão...bem, assustadora. São imagens fortes, que falam ao inconsciente colectivo: conceitos como  Ars Moriendi, Memento Mori ou sepulcros Transi, em voga durante a Idade Média e revividas com certo entusiasmo nos dias ultra românticos do sec. XIX parecem, à nossa sensibilidade, mórbidas e sinistras: mas é preciso compreender o seu verdadeiro significado - é a consciência da nossa insignificância, da nossa fragilidade, que acorda a centelha divina, que dá beleza e intensidade à condição humana.

Sem uma morte simbólica, é impossível evoluir. Acho certa graça ao ver que "Carpe Diem" se tornou um lugar comum, mas esqueceu-se o resto da sentença: tempus fugit, memento mori, carpe diem! Vivemos uma época em que se foge da escuridão, mas sem ela o "carpe diem" torna-se vazio de significado.

 Como gritavam os guerreiros de antigamente, face à batalha... "hoje é um bom dia para morrer". Ou como diz a Bíblia, "o que temia me veio" - mais vale, então, não temer nada. De igual modo, por muito que se defenda a ideia de moldar o destino, há muito poder na sugestão de uma rendição completa ao poder mais alto, à orientação divina; na aceitação, que é muitas vezes o caminho mais curto para que o problema se resolva, pela estranha lei do esforço invertido; e, de braço dado com tudo isto, no arrependimento e redenção. Ocorreu-me esta semana, através de palavras muito inspiradas, que os nossos erros formam infinitos nós, estendendo-se num efeito borboleta que se prolonga meses a fio. E quando damos por isso, a confusão está instalada. Já não sabemos o que provocou tudo aquilo, mas (isto para quem acredita, claro) a crer na lógica da acção/reacção, de algum lado há-de ter vindo. Que fazer?

 Nessas alturas há que apelar mesmo à rendição (e se correr tudo bem, redenção) absoluta. Em modo "afasta de mim esse cálice, mas seja feita a Tua vontade". Esquecer a nossa vaidade, a nossa falsa ideia de poder e supremacia, e reconhecer que não sabemos para que lado nos virar, que as questões já não dependem de nós e que se calhar, só se calhar, nem somos muito dignos de ajuda, mas mesmo assim estamos dispostos a reconhecer que precisamos dela. Na obediência também há poder. Porque relaxamos e deixamos ir. 
Entregamo-nos. Nunca é tarde para procurar a absolvição, para mudar os hábitos que trazem problemas. Mas é preciso ter a consciência, o clic,  de que essa redenção é necessária. Parar de insistir no erro, estender o copo vazio para o recolher cheio.

2 comments:

Ulisses L said...

Escrevi aqui há uns tempos uma história (que o meu editor tem dúvidas em públicar por achar que é muito "dura") em que o personagem principal, fruto dos eventos que vai vivendo e que o impelem a continuar num determinado caminho apenas pela curiosidade de tentar perceber o que se passa à sua volta, acaba por se tornar profundamente determinista. E acaba por ter de aceitar, uma vez que não consegue encontrar explicações lógicas ou racionais para o que lhe acontece, numa espécie de destino que está traçado desde a origem do universo!
Como tu dizes, e bem, ele acaba por se deixar ir, tentando navegar, como lhe é possível, através das reacções que as suas acções depoletam e que seguem numa escalada que vai do particular, ao local, e por fim, global.
Há algo de sublime na aceitação de que não conseguimos controlar as nossas vidas, sobretudo pela dificuldade que isso nos trás. Mas também porque quando o fazemos ganhamos consciencia de que não estamos sós e que qualquer acção de outrem, o simples cruzar o olhar com alguém num pransporte público, pode mudar o dia e quiça a vida de alguém, bem como a nossa...
...quanto mais não seja pela leve mudança de predisposição que isso nos pode trazer...

:)

Imperatriz Sissi said...

Ulisses, adoei o comentário. Obrigada. Há dias falou-se aqui em amor fati, uma ideia que vem na mesma linha...e sim, controlar TUDO é muita responsabilidade, muita canseira.

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