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Wednesday, September 11, 2013

Há homens que são eternos meninos.

                           
A gíria "és um menino!" aplica-se a muitos espécimes que conheço, com idade para ter juízo e usar "as calças compridas" como se dizia no tempo em que as calças eram privilégio dos rapazes crescidos, símbolo de iniciação, coming of age. Se o traje reflectisse o que vai lá por dentro, veríamos muito marmanjo de bibe por aí, a conduzir, em cargos de responsabilidade, a brincar aos adultos.
É que vejamos...bom, como é de criancinhas que falamos, o melhor é contar uma historinha para ilustrar o comportamento destes rapazotes. 

Era uma vez um menino chamado Toninho, que era muito mimado e por isso fazia imensos disparates. Como os pais não tinham tempo para o aturar, deixavam essa responsabilidade à sua competente ama que, coitada, em todos os seus anos de carreira nunca tinha visto um pequeno tão malcriado.

- O Toninho tem tão bom coração! - dizia ela. - Se ao menos tentasse ser mais bonzinho!
Mas o Toninho não queria saber.
- Sou mau, gosto de ser mau e serei sempre mau! - respondia, fazendo caretas, dando pontapés nas latas e portando-se mil vezes pior só para provar a sua supremacia.

A ama, que ganhava o mesmo quer o Toninho se portasse bem ou mal, encolhia os ombros e lá tentava assegurar o melhor que podia que ele fazia os trabalhos de casa, não se sujava todo e acima de tudo, que à noite os pais o encontravam inteiro, sem ter sido atropelado, mordido por um cão feroz ou caído de uma árvore abaixo.

Ora, estávamos nas férias de Verão e o Toninho adorava passar o dia a brincar junto à piscina. A ama pegava no seu tricot, nas suas revistas e lá ficava a vigiá-lo. É claro que o pequeno ditador aproveitava a deixa para a arreliar ainda mais: fazia "torpedos" no firme propósito de a encharcar,  atirava-se da prancha mais alta, arremessava bolas, incomodava os outros miúdos que por acaso lá estivessem...uma lástima! Mas o pior era a sua mania de correr e deslizar de propósito à beira da piscina.

- Toninho, não corra, que o chão é escorregadio! - avisava a ama. - Olhe que cai e magoa-se! Estou a avisá-lo!

- Cala-te chata, velha rezingona! Corro porque posso e me apetece! -respondeu o malcriadão sem respeito nenhum, correndo ainda mais depressa.

Noutro dia qualquer, a senhora teria ido trás dele: mas primeiro, já estava até à ponta do toutiço (desculpem lá, mas esta história é minha e decidi imaginar uma ama de toutiço e touca, estilo Sra. pimentinha) com o pupilo, e a pensar  aceitar outros desafios profissionais; até já tinha recebido uma proposta de emprego mais aliciante que estava seriamente a considerar. Depois, mesmo que quisesse correr não podia: tinha torcido o pé no dia anterior, quando tentava impedir o Toninho de fazer mais uma das suas partidas. Por isso ficou sentada a apreciar o espectáculo. E o circo não tardou: o Toninho escorregou, bateu de cara no chão e caiu dentro da piscina.

Foi preciso chamar gente para o tirar de lá com o nariz amassado, o lábio rachado, um pé a sangrar, um galo na cabeça e outras mazelas. 

Mas julgam que ele aprendeu? Qual quê! Como tinha dores e estava incomodado, mas era incapaz de perceber que a culpa fora dele e só dele, fez uma grande birra, chorou que nem uma Madalena, deu pontapés a todos e ainda acusou a ama de não saber fazer o seu trabalho. 
   Quando a ama se foi efectivamente embora para tomar conta de crianças mais bem agradecidas, sentiu-se muito infeliz e atraiçoado porque gostava muito dela, ainda que não o demonstrasse da melhor maneira. Durante imenso tempo, mandou e-mails à antiga ama a acusá-la de traidora e desalmada, que era a sua maneira de dizer "sinto a sua falta!".

                         
E assim agem muitos homens feitos: pensam que as mulheres na sua vida são uma espécie de Mary Poppins com paciência de Santa, sorriso permanente nos lábios e soluções mágicas para tudo, sempre disponíveis não importa o quão mal se comportem. São avisados, fazem mil vezes pior e mesmo assim esperam carinho, desconto e compreensão. Não percebem quando lhes dizem "esta é uma linha que não podes ultrapassar", não respeitam os limites e ainda se espantam quando a Mary Poppins decide voar para longe deles. Então invertem as culpas e acusam a Mary Poppins de tudo quanto há - traidora, falsa, interesseira, rígida, tirana, exagerada, injusta, leviana, etc. Justo justo, era dar-lhes uma chapelada. Mas há que dar o desconto às criancinhas...

4 comments:

Ulisses L said...

Adorei a história. Bastante ilustrativa, diga-se...

Sabes, acho que o que destingue os homens dos putos não é a parte de fazer ou não fazer, a bem dizer e desculpa o Português, merda.
Toda a gente faz merda, e é normal fazê-la...
O que destingue os homens dos putos é o saber reconhecer que se fez merda em vez de acusar o resto do mundo...

(isto, por acaso, fez-me lembrar uma anedota...
...mas como não têm a ver directamente com o texto, ...)

:)

Sérgio S said...

Desafio: escrever um texto a dizer bem dos homens... :P
Enaltecer qualidade... Haverá alguma?...

Imperatriz Sissi said...

Serginho, o menino não se agaste que eu também digo muito mal das mulheres!
Mas embora ultimamente me surjam mais inspirações de maus rapazes, há por aí textos que dizem muito bem do sexo oposto. Como este:

jessi-aleal.blogspot.com/2010/10/os-homens-sao-uns-injusticados.html

Vadia said...

Excelente história!
É que é mesmo assim. Comportam-se como umas crianças mimadas e depois ficam admirados quando os mandamos à fava!!! Ahahah! É caso para dizer: Cresça e apareça!

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