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Netscope

Monday, September 16, 2013

Já vos contei que sou especialista...

                             

...na complicada arte do bocejo interior, de bocejar para dentro ou, se preferirem, do bocejo invisível?
    Anos  de obrigações profissionais e sociais mortalmente chatas deram-me um traquejo gigantesco para parecer uma ouvinte interessada quando na realidade estou para ali a cair de sono. 
 Para quem não sabe como se faz, é só cerrar os lábios num meio sorriso e suspirar, com o ar mais interessado deste mundo (olhos semicerrados e costas direitas) quando o bocejo parece inevitável. Passear por aí habitualmente com um ar blasé, meio enigmático e enjoado - vulgo cara número 3 -  também dá jeito para que não percebam quando estamos realmente cansados ou aborrecidos. Lá dizia a minha avozinha, só não são permitidas duas caras: a de desgraçadinha, porque ninguém tem de saber da nossa vida, ou a cara de hiena, a rir às gargalhadas por tudo e por nada, que é feio. A neutralidade, o tédio moderado e a expressão circunspecta de quem prefere ouvir duas vezes e falar só uma nunca comprometem.
 Está certo que o ideal é sorrir com os olhos, aparentar (e sentir) uma autoconfiança à prova de bala e parecer a pessoa mais cativante deste mundo: mas quando isso não é possível, nada dá tanto jeito como o aspecto impenetrável. 
Se não fosse guardar estes artifícios para as ocasiões, diria que sou uma profissional do frete - ou do esconder do frete. 
 Felizmente, sempre me ensinaram que a sinceridade cai bem em todo  lado e que as pessoas bem educadas podem mandar as regras às malvas quando é preciso - por isso não me acanho de demonstrar o meu aborrecimento/cansaço se o caso não é realmente importante. A vida é demasiado preciosa para ser gasta em maçadas a que podemos esquivar-nos.

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