Recomenda-se:

Netscope

Friday, September 20, 2013

Madame de Maintenon: virtude (pouco) fácil

                      ´                 

"Não há nada mais inteligente do que uma conduta irrepreensível."

Há algum tempo que nenhuma maîtresse en titre (ou it girl histórica) nos dava a honra da sua galante presença aqui no Imperatrix e confesso que já tinha saudades. Mas estas coloridas superstars de outros tempos são assaz exigentes para se escrever decentemente e bom...para o bem e para o mal eu não tenho a vida delas. Trabalho e esse tipo de coisas, que não me permitem debruçar sobre sedas, espartilhos e alfarrábios. Sinais dos tempos. 

  Tendo falado sobre a amorosa (mas algo vulgar, como todas as Cinderelas) Madame du Barry, sobre Diane de Poitiers (a minha preferida)  sobre os caprichos de um jovem Rei Sol e abordado outros vultos femininos ainda, era uma grande falta não fazer uma homenagem a Madame de Maintenon. Afinal, ela já tem sido citada por aqui, graças à sua sabia frase "mais vale passar por circunspecta do que por tola".

A última paixão de Luís XIV (e sua mulher, embora o casamento morganático nunca fosse confirmado nem desmentido) era uma mulher singular no seu género. Culta, sensata, inteligente, capaz, serena, razoavelmente bem nascida - ao contrário de Madame du Barry, por exemplo) e de uma beleza deslumbrante, que resistiu ao passar dos anos. 

 O nascimento da bela Françoise D´Aubigné continua envolto em mistério. O pai, rebelde e vira casacas que oscilava entre causas católicas e protestantes, foi sucessivamente deserdado e aprisionado por ordem de Richelieu. Casou com a filha do seu carcereiro e tendo a jovem Françoise nascido dessa união, o boato de que viera ao mundo numa cela  ecoaria pelos séculos. 

Por morte do Cardeal, o fidalgo foi libertado e levou a família para a Martinica, onde exercia o cargo de governador. A jovem recebeu o baptismo católico...mas uma rígida educação protestante. Regressada a França com o desaparecimento do seu empobrecido progenitor seria, por ordem dos padrinhos de baptismo (a Condessa de Neuillant e o Duque de la Rochefoucald) educada num convento. 

Lá dedicou-se profundamente às boas Irmãs: o desenvolvimento espiritual que encontrou dentro daqueles muros acompanha-la-ia para sempre.

Mais tarde, a mãe da condessa leva-la-ia para Paris, para a apresentar à sociedade. Mas apesar dos seus dotes naturais, Françoise continuava na frágil posição de fidalga pobre, dependente da caridade da parentela. 

Havia pois, a necessidade de um casamento estratégico: a escolha recaiu sobre o célebre poeta e romancista Paul Scarron: inválido, 25 anos mais velho, mas bem relacionado, abastado (proveniente da "nobreza de toga") e um génio capaz de polir uma rapariga inteligente que nada sabia do mundo. Fascinado, Scarron ofereceu-se para lhe pagar o dote caso quisesse professar num convento, ou para casar com ela. Françoise aceitou a última oferta e por nove anos foi sua enfermeira, companheira e o mais belo adorno do seu salão. Por morte do marido, Madame Scarron conseguiu manter uma situação confortável durante alguns anos. Preparava-se para acompanhar a futura Rainha de Portugal, Maria Francisca de Sabóia, a Lisboa, quando o destino interveio da forma mais curiosa: a (então secreta) amante do Rei, a espampanante Madame de Montespan, ganhou-lhe amizade e rogou-lhe que ficasse, restabelecendo-lhe as pensões que tinham sido cortadas pela bolsa Real. 

Um dia Montespan  havia de lamentar esta decisão...tarde demais!

Mais tarde, o casal pediu-lhe que tomasse a cargo, regiamente paga, a educação dos filhos ilegítimos que iam nascendo. Madame Scarron aceitou, depois de ter ponderado largamente. Dividida entre o escrúpulo de favorecer uma relação ilícita que a sua consciência desaprovava e o dever de servir o seu soberano, acabou por desempenhar o papel brilhantemente. Modesta, não se escusava sequer a executar trabalhos domésticos  apesar de dispor de vasta criadagem.  Fê-lo tão bem, de facto, que a própria Rainha lhe acabaria por dizer "ah, Madame Scarron! Quem me dera que fósseis vós a cuidar da educação dos meus filhos!". 

 Mas o cenário perfeito não duraria muito: o Rei, que inicialmente não simpatizava com Françoise, começou a passar cada vez mais tempo junto da preceptora dos filhos bastardos. Estava cansado do temperamento instável e da língua afiada de Madame de Montespan - que na sua soberba ousava mesmo insultar a sua mulher legítima, a Rainha Maria Teresa. A beleza tranquila e o espírito de Francoise, com quem podia discutir política, religião e economia, eram um bálsamo para o seu espírito atribulado. Agradecido, o monarca cobria-a de presentes: mas quando lhe concedeu a propriedade de Maintenon e o título de Marquesa, a guerra estalou entre as duas mulheres. Às cenas de ciúmes da favorita, o Soberano terá respondido: "Madame de Maintenon sabe o que é amar - seria maravilhoso ser amado por ela!".

Supostamente, Madame de Maintenon (ou por cálculo, ou por questões de moral) teria retirado o Rei da sua relação indecorosa com a Montespan, ao mesmo tempo que ela própria recusava os seus avanços.

Apesar de já não ser uma rapariga (aproximava-se dos cinquenta anos) Françoise não perdera um único traço da sua luminosa beleza. Linda, inteligente e difícil de conquistar - uma combinação fatal para o Rei-Sol, três anos mais novo do que ela mas já cansado de tantas beldades fáceis.
 Não se sabe ao certo quando a ligação terá começado, mas pouco tempo depois, Madame de Montespan era afastada da corte, e Françoise tomava um lugar de honra junto da Delfina - uma posição encapotada para poder ver o Rei sempre que ele o desejasse. Durante este tempo - de acordo com as complicadas relações da época - provou ser uma boa influência para Luís XIV, mantendo mesmo a amizade da Rainha, que a elogiava em público.
 Por morte desta, casou com o Rei numa cerimónia privada, em 1684. Manteve uma posição reservada, como convinha a uma consorte da sua condição, embora lhe fosse atribuída considerável influência política. Não se sabe se alguma vez terá desejado ser reconhecida como Rainha - mas considerando o seu carácter, atrevo-me a duvidar. Uma mulher que preferia passar por circunspecta do que por tola, que pregava os benefícios de uma conduta irrepreensível, dificilmente se prestaria a dar a impressão de não conhecer o seu lugar. Discreta até ao fim - foi assim que passou à História.






No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...