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Tuesday, September 24, 2013

Tio Boccaccio ensina: o castigo do ciumento

                                   

Já vos contei que o Decameron é um dos meus livros preferidos;  encontro sempre algo de novo nos seus contos. É surpreendente como o seu humor e peripécias se mantêm tão actuais. Um dos temas que versa é a guerra dos sexos - com os homens a fazer o piorio do alto da sua (então vigente e oficial) supremacia e as mulheres, com recurso ao ardil e à esperteza, 
a dar-lhes o troco, que isto quando se trata de fazer maldades, tanta habilidade têm os homens como as mulheres...
 Há dias, estava entretida a reler a obra de Boccaccio e ri-me bastante sozinha com um dos (muitos) contos que versam sobre a temática - e as consequências - do ciume doentio. 
 Resumindo a estória, que vale a pena ler na íntegra, havia em Florença um comerciante riquíssimo de nome Arriguccio. Querendo, como tantos do seu género,  ascender socialmente, tratou de casar com uma jovem e bonita fidalga chamada Dona Sismonda. Não foi um casamento lá muito bem arranjado -  quer pelas diferenças de meio e educação, quer pelos ciúmes tremendos que o mercador começou a demonstrar. Cansada de tantas injustiças, Dona Sismonda pensou num esquema: fez o marido crer que o estava realmente a enganar, de modo a que ele ficasse o mais furioso possível e a espiasse ainda mais. 
 Numa noite em que o acicatou mais do que o costume, sabendo que ele voltaria a casa furioso, capaz de cometer violências, subornou uma criada para ficar no seu lugar, na cama e às escuras, e assim apanhar em  vez dela a tareia que se adivinhava. 
 E em boa hora o fez: o bruto, com os ciúmes e os copos, deu uma sova de meter medo à pobre criada (com a fúria e sem luz, nem deu pelo engodo) e não contente com isso, cortou-lhe os cabelos. Depois, fazendo muito escândalo, dizendo-se desonrado, foi a casa da sogra, chamar os cunhados para levarem de volta a ruim mulher que lhe tinham dado por esposa.

 A mulher, mal ele virou costas, acudiu à infeliz empregada, pagou-a bem paga pela tareia, foi-se vestir muito bem e ficou à espera.
 Entretanto, ao ver o genro aos gritos à porta, berrando que abrissem e que tinha espancado a mulher adúltera até a deixar toda moída, a mãe de Dona Sismonda ficou muito aflita e seguiu os filhos pela rua fora, em camisa, rogando-lhes que não acreditassem numa história tão mal contada.
 Qual não foi o espanto de todos quando, ao chegar a casa do mercador, viram Dona Sismonda muito composta, a costurar como se nada fosse e sem marca alguma da cena que o marido descrevera com tanto entusiasmo.
 Passou-se então esta conversa (sic): 

«"Eu não sei o que tenho de contar-vos, nem do que se há-de queixar de mim Arriguccio". Vendo-a assim, Arriguccio olhava para ela como que apalermado, lembrando-se de lhe ter dado, porventura, mil golpes no rosto,  de a ter arranhado, e de lhe ter feito todos os males do mundo. E agora via-a como se nada disso tivesse acontecido. Em suma, contaram-lhe os irmãos o que Arriguccio lhes dissera. A Dama voltou-se para Arriguccio: "Ai de mim, marido meu! Que é que estou a ouvir? Porque me fazes passar, para tua grande vergonha, por mulher ruim, que não o sou, e te apresentas a ti como um homem malvado e cruel, que não és? E quando é que esta noite estiveste em casa? Já não dizendo, quando é que estiveste comigo? Ou quando me bateste? Por mim, não me lembro de nada." Arriguccio pôs-se a bradar.

" Como, ruim mulher? Não fomos juntos para a cama? Não voltei para lá eu, depois de ter perseguido o teu amante? Não te dei eu muita pancada, e não te cortei os cabelos?"
 Respondeu a dama: não foi nesta casa que te deitaste (...) tu nunca me bateste, todos os que aqui estão presentes, reparai se eu tenho alguma marca de pancada! 
 Nem te aconselharia a um tal atrevimento de me pores as mãos em cima; pela cruz de Cristo, partia-te a cara. Também que eu sentisse, não me cortaste os cabelos; só se o fizeste sem eu reparar...(...)" e tirou os véus da cabeça e mostrou que não os tinha cortados, mas íntegros. "Estou certa do que lhe aconteceu: este virtuoso homem, a quem em má hora me entregastes por esposa (...) poucas são as noites em que não anda a embriagar-se pelas tabernas e a meter-se ora com uma, ora com outra, mulheres de má vida; tenho a certeza de que ele foi deitar-se com uma das suas mulheres perdidas,  fazendo-lhe depois todas as valentias de que ele fala e como ainda não tinha voltado bem a si, pensou ter-me feito a mim todas aquelas coisas: olhem para ele - ainda está meio bêbado!".

 Com o que viam e ouviam, os irmãos e a mãe de Dona Sismonda começaram a bradar contra Arriguccio. 


Ao ouvir tais palavras, a mãe dela começou a fazer barulho e a dizer: "pela Cruz de Cristo, minha filha! Até deviam matar esse cão nojento e ignorante, pois ele não mereceu possuir uma menina criada como tu foste. Lindo! Só bastava que ele te tivesse recolhido da lama! Mau ano tenha ele a partir de agora, se tens de estar dependente da porcaria das palavras de um reles mercador de bosta de burro, desses que vieram do campo, oriundos de bandoleiros, vestidos de campónios (...) mal se apanham com três soldos, querem as filhas dos fidalgos, mulheres de sociedade (...). Bem gostava que os meus filhos tivessem seguido os meus conselhos. Podiam ter-te arrumado em casa dos Condes Guidi por um naco de pão, mas preferiram entregar-te a esta bela jóia. Ouvistes como o vosso bom cunhado trata a vossa irmã, aquele reles mercador de dez reis furados? Se eu estivesse no vosso lugar (...)à fé de Deus, dar-lhe-ia uma sova tão grande que lhe servisse de remédio (...) e não ficaria contente enquanto não o mandasse para fora deste mundo! Castigai-o Senhor, a este desgraçado bêbado que não tem vergonha!".


E assim foi o homem ciumento e bruto confundido, taxado de bêbedo, envergonhado e castigado por fazer acusações injustas e infundadas.




2 comments:

Jose Carmo said...

Ardiloso, sem dúvida.
Mas, nos temos que correm, la creme de la creme da subtileza, está na resposta em espécie. Nada como ver a "nossa" mulher a ser alvo dos avanços de outrem, para lhe redescobrimos todos os encantos.
Assim pois, mulherio, se o vosso mais que tudo vos palita alegremente, por vocês já não o estimularem ( há homens, assim, sem desafio perdem o interesse), o melhor que têm a fazer não é produzirem-se para ele e humilharem-se a pedir, mas sim, ligarem o radar e começarem a dar sinais de luzes aos alvos que passam. Se não forem uns completos estafermos, em menos de um fósforo terão um deles a arrastar a asa.
E o vosso mais que tudo, olhará para vocês com novos olhos e uma acrescida produção de testosterona.

Fashionista said...

adoro o Decameron!!

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