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Sunday, September 29, 2013

William Thackeray dixit: protejam-se, mulheres. Sempre.


" Sejam prudentes, raparigas! ... Muito cuidado antes de entregarem o coração. Não digam nunca o que sentem ou melhor, não sintam muito. As paixões sinceras não são de recomendar; não acolham sentimentos que possam tornar-se origem de desgostos. Sigam este método se desejam passar por virtuosas na ´Feira das Vaidades´".

                          in Vanity Fair: a novel without a Hero


As meninas que leram o livro recordar-se-ão, porém, que tanta recompensa recebe a virtuosa mas frágil Amélia, como a espertalhona Becky Sharp. 
 Uma sofre porque sendo tão honrada, tão ingénua e tão sincera, tem mesmo assim os seus sentimentos e motivos postos em causa; a outra, porque não sendo "honesta" no sentido da virtude, é-o pelo menos ao não esconder as suas intenções.  E isto em 1815, quando mau grado outras dificuldades, os papéis de género estavam claramente definidos e os homens, se gozavam de toda a autoridade, tinham também mais obrigações na dinâmica dos relacionamentos: nessa época não passaria pela cabeça de ninguém que uma mulher desse o pontapé de saída para um namoro ou noivado, por exemplo - mas mesmo assim, era fácil ser-se  acusada de encorajar demais (ou de menos) de ser namoradeira, ou qualquer coisa do tipo.
Prova provada de que as mulheres sempre caminharam (e receio que sempre caminharão) em terreno minado.
  Embora o pensamento actual vire tudo ao contrário, pondo de pernas para o ar as regras da natureza (e como já tenho expressado muitas vezes, tornando as mulheres competitivas, os homens preguiçosos e gerando inúmeras confusões, conflitos e mal entendidos) continua a ser esperada do belo sexo uma certa modéstia e reserva, ainda que a um nível subliminar. 
 As meninas ou senhoras que foram educadas num ambiente mais tradicional devem lembrar-se de ter ouvido das mães e avós conselhos muito semelhantes aos de Thackeray. As que se deixaram conquistar (ou reconquistar) por conceitos de regresso ao passado, ao ritmo natural das coisas, como o famoso manual "As Regras" também.
 "Devemos sempre guardar o melhor para nós", dizia a avó. Por melhor, entendia-se a entrega emocional, o auto-controlo, os sentimentos profundos. Uma mulher sensata deve estar sempre no domínio dos seus sentimentos: regra velha como os montes, ensinada em qualquer meio onde as mulheres tivessem a necessidade de vencer, de levar a melhor, fossem os seus objectivos mais ou menos honrados e as jogadoras "honestas" (filhas-família, material para esposas) ou "desonestas" - geishas, cortesãs ou it girls dos palcos. As andaluzas eram famosas por ser exímias nesse jogo de dar corda e puxá-la a seguir, às southern belles americanas ninguém lhes levava a palma na estratégia de lisonjear para corar de seguida, na corte francesa os exemplos são inúmeros, em Veneza nem é bom falar.
 "Não podemos gostar lá muito deles, nem demonstrar demasiado, senão eles (o homem, o inimigo!) não dão valor a nada". 
 Seguir a biologia (homens conquistadores, donzelas inocentes mas ardilosas) não é, definitivamente, tão fácil como a abertura e o à vontade que ficaram em voga e se tornaram o status quo para a maioria em meados do século passado. Porém, os exemplos da história provam que poucas são as mulheres que conseguem carregar a cruz de uma completa sinceridade, a não ser que façam disso bandeira: Mae  Wests e Samatha Jones não nascem na árvores; são a divertida excepção à regra, as mulheres a quem até podemos achar graça mas não queremos necessariamente imitar.
O ideal seria um meio termo, pensará uma mulher sensata do século XXI: ser uma senhora, deixar-se conquistar, certo, mas com bem vinda sinceridade, porque quem diz a verdade não merece castigo e quem sente não é culpado...ou neste caso, culpada. 
 Mas as coisas não são assim tão simples, receio bem. O inevitável e stressante You´re damned if you do, you´re damned if you don´t há-de sempre condicionar a nobre arte de ser mulher.
 Devemos ser criaturas realmente fascinantes, para que se dêem à trabalheira de nos julgar e analisar façamos o que fizermos. 


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