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Saturday, October 5, 2013

Dalila: the Temptress.


                                

Em todas as culturas, épocas, partes do mundo, mitologias, universos e civilizações, as personagens femininas (sejam humanas ou divindades) tendem a dividir-se em três arquétipos: a Donzela, que pode ser inocente, ansiosa por ser salva ou ferozmente independente, com poderes especiais associados ao seu estado "impoluto" (Joana D´Arc, Diana, Minerva, Andrómeda, Branca de Neve) a Tentadora ou a Mãe, que incorpora as facetas da Paixão e/ou da Fertilidade (Eva ou Lillith, Ísis, Teodora, Cleópatra, Afrodite, Ishtar, Deméter) e a Destruidora, Anciã ou Trágica (as Mater Dolorosa, da "Boa Morte", Perséfone, Hécate, Kali, Medeia, a Fada Má) que viaja entre mundos, tem poder sobre o céu e o inferno, compreende ou representa as dores da condição humana e não se importa de sujar as mãos para resolver um problema. Todas elas, dentro das suas nuances, reflectem aspectos da mulher e passagens da vida. Podem ser compassivas ou cruéis. E todas têm mais mistérios do que seria possível enumerar aqui já que a natureza feminina é, em si mesma, cheia de miríades. As três faces da Deusa Mãe, mais velha do que o tempo, estão presentes em todo o lado, até na cultura pop. 
 Mas das três, talvez a mais complexa - e a que pior reputação nos trouxe -  seja a face da Tentadora/Amante/Mãe, por ser a mulher na sua plenitude, no auge do seu poder físico. A Segunda Face - representada  antigamente pela Lua Cheia - não é uma menina inocente e teimosa, como a Donzela, que nega (ou ainda não conhece) o poder masculino na sua vida. E também não está mais próxima da Morte, como a Anciã ou a Destruidora, que assume plenamente a obscuridade e é, por isso, mais fácil de compreender. Encontra-se no apogeu da sua beleza, da sua capacidade reprodutora e já experimentou o Bem e o Mal. Tem, por isso, o potencial para a criação (Ceres) a paz doméstica (Juno) a Maternidade (Ísis) e outros aspectos amorosos, seguros, mas também para a tentação que pode ter consequências catastróficas: Eva, Lillith...Dalila.
                               
 A Bíblia está cheia de heroínas e vilãs fascinantes - Débora, Jezebel e Judite acodem-me à ideia assim de repente - mas sempre tive um fraquinho no meu coração por Dalila. Má da fita, porque a estória é sempre contada pelo lado dos vencedores, e decerto não seria um prodígio de moralidade ( receber um resgate de rei para levar um homem à perdição NÃO é bonito) mas olhem bem para ela: para já, apaixonou-se verdadeiramente pelo Sansão. Coisa fácil, porque as pessoas belas tendem a sentir-se atraídas umas pelas outras. Nada mais natural que a mulher mais bonita das redondezas caísse nos braços do campeão da terra, homem garboso e despachado embora não muito esperto, como se viu. Foi o bad romance por excelência: por um lado, Dalila tinha uma missão a cumprir e não gostava de perder nem a feijões (a lealdade ao seu povo e a recompensa não estariam fora da jogada, claro) por outro isso implicava, possivelmente, a morte do homem por quem estava ferozmente apaixonada. Drama clássico do piorzinho. 
                                                  

  Depois, era linda e sabia usar a sua beleza com efeito, sem hesitações. Não é por acaso que no cinema, Dalila costuma ser representada por uma mulher lindíssima de olhos verdes ("olhos verdes são traição") e beleza dramática, contrastante. Dalila é o supra sumo da beldade ardilosa, que emprega o seu encanto para conseguir o que deseja. Os resultados disso são moralmente discutíveis, claro, mas o arquétipo ultra feminino, vertiginoso, está todo lá.
 Por fim, era mais inteligente a dormir do que Sansão nos seus melhores dias: tudo bem que a beleza pode cegar, mas não era preciso ser nenhum génio para perceber onde a amante queria chegar com tantas perguntas. São precisos dois para dançar o tango: a tentadora, e o homem que só vê o que deseja ver e só ouve o que quer ouvir.
 E isso diz, definitivamente, alguma coisa dos homens. E das mulheres que sabem levar a água ao seu moinho. Há coisas que nunca mudam - é por isso que os arquétipos nunca passam de moda.

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