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Sunday, October 27, 2013

Então, temos haute couture em Portugal. E...?

                            Tony Miranda
Eu conheço mal, muito mal, o trabalho de Tony Miranda, que aparentemente é o único criador português de haute couture, trabalhou anos em Paris com Ted Lapidus (um dos grandes nomes do prêt-a-porter, que vestia Brigitte Bardot) foi um precursor do blazer para senhora e, regressado à Pátria após um percurso alucinante, continua a vestir algumas das poucas almas no planeta que usam alta costura e a inovar: esteve entre os primeiros a ver o potencial da Avenida da Liberdade para instalar as lojas das principais Casas de Moda na Capital Portuguesa (é actualmente senhorio da Miu Miu, que fica por baixo do seu atelier em Lisboa). 

 Repito: conheço mal as criações do beirão-tornado-parisense, logo não posso opinar sobre o seu gosto, o seu estilo ou o seu rasgo. Sei apenas que, como eu, gosta da roupa "vestível". Da mulher com peito, anca e cintura, que cai melhor nas roupas que faz. Dos detalhes, cortes e acabamentos perfeitos - outra coisa não seria possível, dado o seu ofício. 

Mas mais não sei...porque há muito pouco sobre o seu trabalho na imprensa de moda portuguesa. Afirma o couturier (afinal, nem todos os designers são verdadeiros couturiers hoje em dia) que não é convidado para os grandes eventos de moda nacionais. Que o seu portfolio foi ignorado. Reservando o benefício de que quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro e baseando-me somente no meu modesto ponto de vista, eu atiraria uma hipótese: é que a moda portuguesa, em geral pelo menos, é muito conceptual, muito cool, muito "urbana", muito avant garde para tolerar um couturier a sério, dos que sabem mesmo costurar e fazem questão de o fazer, nas suas passerelles.

 Deus nos livre que no meio de colecções em que predominam vestidos-saco cinzentos, aparecessem criações que têm como prioridade bons pontos, bons forros, medidas primorosas, coisas usáveis, que reflectissem um bocadinho da verdadeira arte de ...bom, fazer roupa.
 Eu, que à "criatividade" a martelo, às pretensões artísticas e à "imaginação", que qualquer pessoa que aprecie moda tem forçosamente de ter, prefiro experiência, tradição e know how, não conhecendo o seu trabalho digo já que aprecio muitíssimo a sua filosofia.

 Só pelo ambiente e época que viveu, pelo savoir faire que trouxe de um lugar e de uma época em que se trabalhava de outra maneira. Porque um director criativo pode manter uma griffe no topo, acompanhar os tempos conservando a inspiração original, mas isso não é nada sem verdadeiro conhecimento - sem mãos. Sem alfaiataria. Podemos filosofar sobre a moda, certo: é arte, é inspiração, é um fenómeno social, para que funcione são precisas referências, mas...sendo muito mais do que apenas roupa e sapatos, vive essencialmente dessa roupa e desses sapatos.

 Noutro país Tony Miranda seria uma celebridade, acompanharia as escolas para ensinar novos designers, teria uma palavra a dizer em publicações da especialidade. Aqui é tratado como algo raro (que é) mas a tradição e a arte são vistas como uma relíquia de outro tempo, que não tem nada a ensinar aos "jovens criadores" que já nascem ensinados. Que se estão marimbando para a forma como sempre se trabalhou lá fora (ou mesmo, nas boas casas de alfaiataria cá de dentro) para as próprias tendências que griffes como Balenciaga ou Prada fazem questão de acompanhar, e que, na sua ânsia pelo "moderno", pelo "cool" fazem na sua maioria colecções tão iguais, tão inexpressivas que, de ano para ano, eu não distingo uns sacos de batatas de outros. Que sei eu? Sou uma daquelas botas de elástico que ainda olha para as passerelles em busca de algo que possa...vestir.  

 Felizmente, Tony Miranda não precisa de nada disso porque está lindamente. Talvez nem tenha interesse, porque o seu trabalho vive um pouco da raridade e da exclusividade, em internacionalizar-se fora do círculo em que se move ou em massificar-se cá dentro. Mas que não faz sentido que quem sabe realmente de moda entre nós não seja trazido nas palminhas na terra de profetas que o viu nascer, não faz. E é uma pena, porque me parece que a moda nacional teria muito a aprender com ele a bem do orgulho luso  e da tão sonhada internacionalização, que precisa sempre de um selo de qualidade. Just thinking.



1 comment:

Sara Chaves said...

Não conhecia este senhor, e sem duvida estarei mais atenta ás suas movimentações...
Obrigado
Mimalhices Diárias Blog

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