Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, October 29, 2013

Os verdadeiros bullies.

                                             
Nas novelas e em certos filmes, séries e nos livros do universo pop o vilão, o bully, a peste de serviço é quase sempre bonito, rico, poderoso, etc. O milionário caprichoso com intenções sinistras, a cheerleader malvada, o grupinho popular que inferniza a vida aos colegas mais tímidos, a conspiradora requintada, o génio malévolo, fazem parte das personagens que adoramos detestar. 

Na vida real, "personagens" destas nunca me deram problemas.  Em parte porque as pessoas felizes e bem sucedidas costumam estar demasiado ocupadas (ou têm segurança suficiente) para não implicar com os outros, em parte porque são personalidades fáceis de entender:

- Os mandões não fazem farinha com quem se mostra tão mandão como eles.
- Os poderosos percebem imediatamente a subserviência e a arrogância: basta não cair em nenhum desses extremos e agir como um deles, com certa indiferença blasé, para passar despercebido ou mesmo ganhar o seu respeito (desde que o respeito valha a pena...).
- As pessoas que gostam de magoar os outros com ditos jocosos desistem quando recebem a paga na mesma moeda (e eu sempre fui boa a topar os pontos fracos alheios, e melhor ainda a pôr alcunhas que pegavam...).
- O mesmo acontece com alminhas agressivas: só atacam quem está vulnerável, ou demonstra ser uma vítima fácil. Uma vez confrontados, encolhem-se cobardemente e não voltam a chatear. 

Essas "ameaças" são demasiado evidentes para causar dano. 

Não, eu não compro o estereótipo do "bully popular/bonito/poderoso". Acredito muito mais nos vilões Queirosianos: a Juliana, a "pobre de Cristo" feia e solteirona, uma "pobre mulher" sempre doente, capaz de roubo, tortura e chantagem, invejando de morte tudo e todos; o Dâmaso, gorducho e cobardolas, estúpido como um melão mas sempre morto por apunhalar pelas costas os amigos que engraxava de forma repugnante, e que o recebiam em casa como família.

Medo, medo mesmo, tenho dos coitadinhos, dos fofinhos ressabiados, dos patetas alegres e dos infelizes que parecem inofensivos. Quando me dizem que alguém é "inofensivo", que "não faz mal a uma mosca" desconfio - e devia desconfiar mais, mas a bondade e a caridade que devemos ao nosso semelhante levam-nos a baixar a guarda.

 Posso dizer, com justiça, que as maiores chatices que já me aconteceram foram causadas por coitadinhos: o menino tímido, que tem tanto azar na vida e a quem tudo corre mal, tão fofinho e prestável; a rapariga feiinha de dar dó, que parecia tão amiga, coitada, sempre a deitar água na fervura, a fazer de ombro; aquela pessoa burrinha de todo, tão tonta, palhacita da turma, incapaz de juntar dois mais dois, quanto mais de causar uma intriga ou de armar confusão.

 A infelicidade adora companhia e associada a uma certa falta de sentido da realidade e das limitações, tem consequências desastrosas. É terreno fértil para a ambição desmedida, para a megalomania, a inveja, a cobiça do alheio, a má língua, a perseguição, a obsessão. 

Só porque alguém é "coitadinho" não significa que não alimente os mesmos desejos, embora com menor possibilidade de os pôr em prática de forma honesta. E como não consegue o que ambiciona pela beleza, nem pelo talento, nem por recursos próprios, decide obtê-lo a todo o custo, ou pelo menos tentar.  Se não lucrar nada com isso, ao menos coloca os outros ao mesmo nível de infelicidade. E sempre pelas costas. Quando se dá pelo estrago causado por um "coitadinho", já a casa está em chamas. E se for preciso, o "coitadinho" ainda vai chamar os bombeiros, passando por santo e fugindo a seguir.

Claro que se for apanhado, castigá-lo ainda cai mal à vítima - afinal, não se bate num coitadinho. Ou vem a sociedade defendê-lo, porque "foi mal amado", "sofreu muito na vida", etc, etc como se o estrago causado por um infeliz ou por uma pessoa que está lindamente não seja igualmente grave para quem sofre as consequências.

 Por isso, prefiro os maus com estilo, os bullies bonitos: podemos enfrentá-los cara a cara, não enganam ninguém e na maioria dos casos, não são grande ameaça. O que passa despercebido é sempre pior. Como os vírus e as bactérias.




  


No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...