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Sunday, November 17, 2013

A língua afiada de Anne Boleyn

                        Natalie Dormer as Anne Boleyn
Os historiadores da actualidade, mais compreensivos e imparciais, defendem que Anne Boleyn terá perdido o coração do Rei (e por conseguinte, o trono e a cabeça) não por ser adúltera, mas apenas por ter uma língua afiada -  leia-se, não tolerar desmandos nem abusos de um monarca que se achava Deus na Terra. 

Ou seja, terá pecado mas apenas por excesso de confiança: a personalidade forte que tanto atraiu Henry VIII tinha graça numa amante, mas não era bem vinda numa Rainha Consorte, que se pretendia dócil e obediente. Se Catarina de Aragão sofria  calada caprichos, infidelidades e faltas de respeito, Anne (que se virara do avesso para escapar ao assédio do Rei) não estava disposta a suportar desgostos do homem que rompera com a Igreja para casar com ela: não fazia sentido. 

 Brutalmente honesta, também não escondia as suas animosidades ou antipatias: uma rapariga what you see is what you get. Faltava-lhe a capacidade de dissimulação (mercê do seu sangue irlandês?) para sobreviver no ambiente que a rodeava.

 Uma mulher de carácter vincado e com respeito por si própria, habituada a dizer o que pensa, dificilmente enfrenta hoje o cadafalso mas terá decerto outros desafios. Não se trata aqui de defender o terrível comportamento de certas "senhoras hárpia" - amargas, refilonas, sempre de nariz torcido - mas fazer-se respeitar perante certos hábitos arrogantes do sexo oposto, habituados a comportamentos femininos menos dignos e mais complacentes, pode ser muito difícil. 

A meiguice é necessária, mas é preciso traçar a linha entre doçura, gentileza e...ser parva.  Dizia Picasso que só há dois tipos de mulheres: Deusas ou tapetes. Eu não gosto de cair em extremos, mas receio que possa ser verdade. Senão, vejamos: Catarina de Aragão, apesar de toda a sua dignidade e sangue real do melhor que pode haver, foi tapete durante muitos anos e só deixou de o ser tarde demais: viu-se banida, divorciada, afastada da filha e morreu literalmente de coração partido. Anne Boleyn era, segundo Picasso, uma Deusa: foi decapitada. Jane Seymour, com toda a sua meiguice (e apesar de gostar dela, digo-o francamente: ardil e muita graxa) lá ficou nas boas graças do Rei com artes de tapete, mas se não tivesse morrido antes, não sabemos o que teria sido.

 Mal por mal, acho que Anne Boleyn acabou por morrer melhor e viver melhor. Foi a que ficou para a História, e a que menos sapos engoliu. Better to burn than to fade away, lá diz o estribilho...

1 comment:

Paula said...

Era cá das minhas: não engolia sapos!
Já imagino o meu futuro se vivesse numa época dessas e não seria muito risonho...
vidademulheraos40.blogspot.com.

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