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Wednesday, November 27, 2013

Marie Laveau: it girl e Voodoo queen

                                 
Em American Horror Story: Coven, Marie Laveau está a ficar *um bocadinho* má demais para o meu gosto. Não tenho nada contra uma vingança justa, mas há que não descer ao mesmo nível; depois, é impossível não torcer pela Suprema, Fiona, a bruxa socialite em Chanel, por mais maldades que ela faça. Em boa verdade as personagens são todas adoráveis e o que eu queria mesmo era que se entendessem numa bruxaria grande e feliz.

  Mas a verdadeira Marie Laveau também era um pouco assim: santa e pecadora, anjo e D. Corleone de saias, benfeitora, mulher de negócios ou protectora dos desvalidos, consoante a época da vida ou a perspectiva de quem contava o conto: um poço de mistérios e ambiguidades que permanece envolto em lendas 132 anos depois da sua morte...se é que morreu mesmo.

 Os relatos mais consistentes dizem que, tal como na série, a Voodoo Queen nunca envelheceu  (embora haja a possibilidade de ter sido confundida com a sua filha, Marie Laveau II, que morava na mesma casa e continuou a sua obra, com menos poderes mágicos mas maior sentido do mediatismo).
Um aspecto é, porém, incontestável: Marie Laveau era uma beldade crioula de imponente presença e apesar de iletrada, senhora de grande espírito, capaz de se impor na sociedade pelos melhores e piores motivos.
                      
                                  
Marie Laveau nasceu no final do sec. XVIII/ inícios de XIX, com o estatuto de "mulher livre de cor" , filha do dono de uma plantação e de uma linda crioula. Em 1819 casou com Jacques Paris, um emigrante do Haiti que se refugiara na antiga colónia francesa: a cerimónia foi celebrada pelo famoso Père Antoine, de quem Marie viria a ser muito amiga e com quem realizaria grandes obras de caridade. Católica devota, mulher piedosa, a voodoo queen manteve sempre o sincretismo entre as crenças dos escravos e as regras da Santa Madre Igreja, como é comum em tantas práticas mágicas da Diáspora africana: no voodoo, tudo advém do "Bon Dieu" (o "bom Deus) e os Loas (Deuses) dão-se pelo nome dos santos do calendário...
 Com o desaparecimento do marido, assumiu o nome de Viúva Paris e  uma união de facto ("plaçage") com um branco, com quem teria vasta prole.

Por volta de 1830, Marie Laveau já era considerada a Voodoo Queen de Nova Orleães. Até hoje discute-se se o seu êxito, que cativava brancos e negros, se devia aos seus feitiços (ficaram famosas as suas cerimónias na noite de S.João, onde dançava com cobras e que atraiam milhares de curiosos) ou à sua entrada privilegiada nas casas de boa sociedade: Marie Laveau era cabeleireira de profissão e uma espécie de Robin dos Bosques de criados e escravos, que por medo ou necessidade lhe contavam os segredos dos patrões.

 O mais provável é que fosse uma combinação de tudo isso, associado a um enorme carisma e aguçada inteligência. O certo é que enriqueceu: dizia-se à boca pequena que tinha um bordel, entre outros negócios; que pelo menos um Governador morreu graças aos seus feitiços; que conseguiu impedir várias execuções injustas, ora manipulando o juiz (com recurso à chantagem ou à magia, nunca saberemos) ora encantando a língua das testemunhas, ora provocando tempestades. Atribuíam- lhe a glória ou a culpa por tudo o que era espectacular e inexplicável naquela cidade tão cheia de magia. Se era um anjo para os oprimidos, a sua ira contra aqueles que odiava não tinha quartel.

 Vaidosa, os sapateiros contavam-na entre os seus melhores clientes. Era recebida em toda a parte. Durante um surto de febre amarela em 1853, trabalhou incansavelmente como enfermeira e femme traiteur (curandeira). O seu suposto enterro, em 1881, teve uma assistência nunca vista - pobres e ricos de todas as cores, os mais desfavorecidos e as melhores famílias, ninguém quis deixar de se despedir da mulher mais famosa da cidade. Diz-se, porém, que continuou a aparecer - e que ainda por lá vagueia. O túmulo que lhe é atribuído (pois ninguém sabe ao certo se e onde foi sepultada...) dá imenso trabalho aos zeladores do cemitério de St. Louis: turistas e devotos insistem em deixar oferendas ou marcar três cruzes para que a Rainha do Voodoo lhes conceda um desejo, apesar das advertências das autoridades...
                    

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