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Thursday, November 21, 2013

The kindness of strangers‏.

                                        

Na nossa cultura, o conceito de "amor ao próximo" está bastante enraizado, ainda que não seja lá muito levado a sério. 

Depois, há vários "próximos" - o próximo de ocasião, o próximo casual, o próximo que é refugiado lá nos confins do mundo e movimenta uma onda de solidariedade, o próximo que puxa pelo heroísmo, pela virtude (e logo, pela vaidade) de cada um e o verdadeiro próximo ou antes, o mais próximo: as pessoas que nos são íntimas. É por aí que o amor ao próximo deve começar e exercitar-se: dentro de casa. Isso sim, é um desafio.

Desde que não se seja um coração empedernido, é fácil ser bom para o estranho que se vê uma vez. Essas belas obras, essa capacidade de empatia para com quem não nos é nada, nascem do impulso de uma alma bem formada e generosa (desde que o acto caridoso não seja feito para inglês ver, pois já se sabe: que a mão direita não saiba da esmola que a esquerda deu). Nasce da capacidade de se colocar no lugar do outro, de ser sensível ao sofrimento alheio. Não passar e andar, não olhar para o lado, dar uma ajuda que pode ser determinante no destino daquela pessoa (ou bicho) é decerto louvável e mais do que isso, uma obrigação de qualquer espírito civilizado.

Mas depois, na maior parte das vezes, esse próximo de ocasião vai à sua vida. Não fica por perto
para nos ver do avesso, para ver o nosso lado menos bonito, nem nos voltamos a incomodar com ele. Só permanece a memória de uma atitude solidária, mas isolada. O próximo de ocasião não faz birras, não atura os nossos amuos, não precisa mais de nós, não dá trabalho, não tem trabalho connosco nem nos aconchega a roupa. Os próximos de ocasião dão muito jeito porque só nos fazem ser bonzinhos de quando em vez. E na hora derradeira, o próximo de ocasião conta para entrar no Céu, mas não vai ao velório do Bom Samaritano (ou dificilmente irá, a não ser que entremos no campo da fábula).

 Complicado, complicado é exercitar essa capacidade de se colocar no lugar do outro, de ser sensível ao sofrimento alheio, com a cara metade, a família, os amigos chegados - nas relações em que há intimidade e hábito. Em que as fronteiras entre a familiaridade e a sensibilidade se esbatem. Difícil é não fazer sofrer quem realmente gosta de nós. Evitar as palavras duras. Dar o braço a torcer. Pedir desculpa. Evitar ofensas desnecessárias. Agir sem egoísmo. Perdoar as expansões desagradáveis. Passar as borrachas necessárias para seguir em frente. Fazer vontades e aturar vontades. Engolir o orgulho, ter paciência, ser carinhoso (a) e compassivo (a) mesmo quando não apetece, mesmo quando estamos zangados, ou com os brios feridos. E isto todos os dias, que as relações com os verdadeiros próximos não são para os momentos em que apetece fazer de super-herói, ou salvar o dia. Com o verdadeiro próximo, é preciso salvar cada dia: cada momento que temos a sorte de apreciar com as pessoas queridas ao nosso lado. E isso, já se sabe, é uma canseira. Não há bênção que não tenha responsabilidades.
                                                      
And especially people
Who care about strangers
Who care about evil
And social injustice
Do you only
Care about the bleeding crowd?
Easy to be hard
Easy to be cold
Easy to be proud





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