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Saturday, December 21, 2013

A socialite que fez frente a Napoleão

                        : File:Elizabeth-Patterson-Bonaparte Gilbert-Stuart 1804.jpg

É curioso como a beleza, a graça e a elegância são paus de dois bicos para as mulheres: se por um lado constituem algumas das nossas melhores armas, por outro escondem, muitas vezes, um coração de leão, uma alma de aço, um ânimo varonil. Isso pode ser bom, pode ser mau: ser subestimada é duro, mas o efeito da surpresa quando uma mulher mostra  a sua verdadeira face tem as suas vantagens. E Elizabeth "Betsy" Patterson, que passaria à história como Elizabeth Bonaparte, provou que isso é verdade quando deu muitas dores de cabeça a um dos maiores movers and shakers  de todos os tempos: nada mais nada menos que Napoleão.

  Olhando para ela, pouco mais havia ali do que uma cabeça oca: menina mimada, filha de um irlandês riquíssimo, linda, graciosa, era a típica debutante americana, conhecida por um estilo arrojado e atrevido: diz-se que o seu vestido de noiva era de um tecido tão frágil, tão transparente, que "cabia no bolso de um cavalheiro".
  Jérôme Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão viu-a numa visita à América ( visita feita à revelia da família)  e ficou imediatamente apaixonado, propondo-lhe casamento após uma corte relâmpago. 

O pai da noiva tentou dissuadi-la (obrigando, inclusive, a um acordo pré nupcial para proteger a fortuna da família) e Napoleão - que como bom self made man, procurava esquecer o seu berço não tão brilhante casando estrategicamente a parentela pelas melhores Casas da Europa - negou imediatamente a sua bênção, mas o casal foi irredutível. Menina do papá, Elizabeth fez o que todas as raparigas habituadas a conseguir o que querem fazem: bateu o pezinho e afirmou " prefiro ser mulher de  Jérôme Bonaparte por uma hora do que de outro homem toda a vida". Palavras proféticas: casaram e tornaram-se o acontecimento da sociedade local, mas o idílio, como era de prever, não durou muito.


Apesar das instâncias do resto da família - que se mostrou favorável à união -  Napoleão foi irredutível: insistiu que o casamento fosse anulado, movendo mesmo diligências junto do Governo Americano. Mas o irmão, igualmente teimoso e com a ferocidade dos apaixonados, recusou: além de tudo, Elizabeth esperava um filho seu.  O embevecido marido esperava que o irmão ficasse tão encantado como ele assim que conhecesse a jovem americana...mas Napoleão não estava disposto a deixar-se enfeitiçar. Em 1804, quando Napoleão se declarou imperador, Jérôme tentou levar a mulher para França para assistir à coroação - mas o destino parecia estar contra o casal. Após um naufrágio que quase os matou e os impediu de sair de Baltimore, os recém casados conseguiram partir para a Europa. Porém, chegados a Lisboa, um emissário informou-os de que "Miss Patterson não devia pôr os pés em solo europeu". 

A resposta de Elizabeth foi peremptória "diga ao seu senhor que Madame Bonaparte é ambiciosa e exige os seus direitos como membro da família imperial".  Depois disto, a guerra estava declarada.

Jerome Bonaparte
Jérôme Bonaparte
Elizabeth ficou retida no porto ou aliás, de porto em porto, já que Napoleão lhe vedava sucessivamente as entradas em várias cidades da Europa - enquanto Jêrome viajava para Itália para tentar convencer Napoleão. Porém, colocado perante o ultimato de desistir da mulher ou  perder o apoio da família, os títulos e de ficar sozinho com as suas numerosas dívidas, cedeu. Napoleão não conseguiu anular o casamento perante Roma, mas fê-lo de qualquer modo nos tribunais franceses. O casal nunca mais se veria. Jerôme casou (para todos os efeitos, em bigamia) com a Princesa Catherine de Nuttemberg. Cheio de remorsos, ofereceu a Elizabeth uma soma fabulosa, um castelo e  título de Princesa, se ela lhe entregasse o filho, mas ela riu-se dele, chamou-lhe fraco e disse que o reino dele era "pequeno demais para duas Rainhas". Aceitou, no entanto, do odiado cunhado uma quantia principesca na condição de deixar de usar o nome Bonaparte - acordo que nunca cumpriu, embora tivesse conseguido um divórcio na América e se referisse ao ex como "o bígamo".

Dedicou-se a gerir a fortuna paterna em Maryland, com assinalável êxito, aumentando o pecúlio familiar.

Após a queda de Napoleão, regressou à Europa acompanhada do filho e com a ajuda de duas cunhadas - Pauline Borghese e a Marquesa de Wellesley (mulher do irmão do Duque de Wellington) fez um tremendo sucesso nos círculos mais restritos da sociedade. O nome do marido (que apesar de tudo, ainda tinha um certo sabor a lenda) a sua fortuna, beleza e espírito tornavam-na a queridinha da gente bem e das revistas do social. No entanto, preferiu não tornar a casar, mantendo a sua situação de beldade independente,  cunhada do extinto imperador. Só falhou o objectivo de casar o filho numa casa aristocrática, já que este preferiu uma herdeira americana- e  a linha Bonaparte nos EUA acabou por se extinguir por falta de descendência.  Bessy morreu com mais de noventa anos - rica, feliz, festejada por toda a gente.

Se a vida nos dá limões, há que fazer limonada - E Bessy Bonaparte sabia como.


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