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Sunday, December 15, 2013

Altivez, precisa-se.

                            

Não me refiro à  altivez arrogante e caricatural, a vaidade barata que nasce da insegurança, do sucesso demasiado recente. O estar "cheio de vento" por meia dúzia de vitórias que não se sabe se serão duradouras, ou pela admiração fátua de alminhas que por sua vez, não têm nada que se lhes possa invejar, é um exercício dos fracos, dos deslumbrados, de poseursNão há nada mais deselegante.

O meu estimado Anton Moonen, que é um cavalheiro experiente na matéria, explica o assunto muito melhor do que eu poderia fazer: há que ser blasé. Evitar a exaltação. Em suma, ter calma e não dar à maior parte das situações mais do que o erguer de uma sobrancelha. Citando:

" (...)  dissimula as suas feridas através de um ar altivo, de um aspecto glacial, de desdém pela lisonja (...)"

"(...) respondia aos elogios com um sorriso desfavorável; evitava (...) os burgueses endomingados e o que mais detestava era a exaltação e a desordem"

"...a única forma de sermos felizes, e de o permanecer, é nunca nos surpreendermos". Para Baudelaire, há que " surpreender os outros sem que nós mesmos jamais o sejamos". "Aqueles que do mundo não têm nenhuma experiência deixam-se surpreender por coisas sem qualquer importância" diz la Fontaine. E Descartes vai mais longe ao ver no facto de nos espantarmos com algo "um excesso de admiração que só pode ser negativo".

 Sendo eu uma pessoa serena (demasiado serena, por vezes; as boas notícias deixam-me numa felicidade tão tranquila, disfarço tão bem o meu entusiasmo,  que por vezes me perguntaram se eu estava a entender bem a dimensão da coisa) acho o excesso de vaidade, de gabarolice ou de adulação uma coisa pouco digna. É um reflexo involuntário : não aguento a atitude "olhem para mim, elogiem, quero palmas" nem a prostituição social de quem procura dar-se com toda a gente, agradar a toda a gente, de  quem se põe de joelhos com peçonha, mel e graxa, ante o primeiro figurão que lhe aparece, à espera de favores ou que o brilho seja contagioso. Há que ser seguro de si. Selectivo. E discreto.

 Mostrar entusiasmo excessivo não e próprio, e as pessoas que realmente me encantam são as que não se deixam deslumbrar com nada, nem impressionar com nada, nem perturbar ou intimidar por coisíssima nenhuma. Que estão à vontade em todo o lado e para quem o êxito, a beleza, a atenção, o poder ou a riqueza das duas uma: ou não são novidade, ou são a coisa mais natural do mundo. Pessoas que tremem que nem varas verdes perante um jantar selecto, ou uma entrevista com uma personagem qualquer, pessoas  que aplaudem ruidosamente e são cheias de salamaleques dão-me vontade de lhes dar um beliscão, em modo "put yourself together! recomponha-se! mostre alguma dignidadezinha!". É que soa a falso e só mostra que lhes falta mundo. Hábitos delicados. Educação, em suma.

Não é pecado não ter tido acesso a estas coisas - mas demonstrá-lo sim. 

 Como em tudo na vida, às vezes menos é mais. E a altivez, ainda que precise de ser treinada e moderada, é o remédio para muitos males, podendo mesmo colmatar (ou disfarçar) a falta de chá que leva à necessidade imperiosa de admiração e aprovação. Quando na dúvida, há que ser altivo e sossegado - e volto a citar Madame de Maintenon " antes passar por circunspecta do que por tola". Ou tolo, vá.


2 comments:

menina lamparina said...

Este post faz-me lembrar uma frase da minha irmã a meu respeito, por achar que sou a pessoa menos impressionável à face da terra: "Se procurasse 'snob' no dicionário, na definição constaria o teu nome". Ahahahah independentemente de concordar ou não com a parte do snobismo, a verdade é que me revejo totalmente nas tuas palavras. Não o faço de propósito e chego a fingir entusiasmo perante uma boa notícia, só para não picar a alegria de quem ma conta. :)*

Imperatriz Sissi said...

Minha querida lamparina, a isso chama-se ter mundo, ter chá, não ver no êxito uma novidade inalcançável. Ou vem de berço, que é o mais comum, ou é um dom dos deuses, ou então só com muita vontade de aprender e muito treino. Beijinho.

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