Provavelmente vou escandalizar algumas meninas, senhoras, marcas e românticos empedernidos ao dizer isto ("o que nós queríamos era um post para o obrigar a
lembrar-se do Dia dos Namorados!", "com a crise que por aí vai escreve coisas que são más para o negócio?" ou " anda um homem a esforçar-se para vir a Sissi meter ideias malucas na cabeça das mulheres que lhe lêem o blog?"). Desculpem qualquer coisinha, que eu sou pelo amor, sempre o disse; algumas coisas que tenho escrito versam sobre o tema e já têm sido inseridas em formatos de época, por uma questão de coerência; enquanto jornalista perdi a conta aos "especiais Dia dos Namorados" que enchi de todas as tradições, mitologias e amantes lendários de que me lembrei, fora as costumeiras entrevistas a casais -modelo, ou casais idosos com amores à prova de bala; acredito que faz sentido haver uma altura do ano dedicada aos namorados. Acho lindamente que se festeje o amor. Mas detesto a pressão colocada no dia em si, embirro com o sentimento de "obrigação" gerado por essa ideia na mente das pessoas. Já lá vamos.
Nos primeiros S. Valentins, achei a maior das graças àquilo tudo. Já tinha recebido muitas flores por razões profissionais, mas era giro receber rosas encarnadas oferecidas com aquela intenção. E cartões com ursinhos e cartas de amor verdadeiras lá dentro (nisso sempre fui sensata; nunca gostei de frases feitas). O entusiasmo durou algum tempo. Depois comecei a observar o que se passava à minha volta, e estando só ou acompanhada, comecei a ganhar certa birrazinha ao dia. Cheguei a optar por celebrar, mas em casa. Isto por coisas como:
- Artigos em revistas femininas (ou pior, juvenis) que sugeriam manobras - de - mulheres - da -luta do estilo "quinze dias antes, comece a mandar mensagens com uma contagem decrescente...faltam X dias para o Dia dos Namorados" (juro que li mesmo esta e pensei e porque não amarram o infeliz a uma cadeira com uma arma apontada? Era menos cansativo, já agora).
- A loucura sazonal de amigas e colegas, cada uma em verdadeiras sessões de exibição desesperada "o meu namorado é melhor que o teu" (mesmo que o relacionamento estivesse a dar o triste piu). O pânico "se ele se esquece, ai que vergonhaça!". A pressão sobre os respectivos, que por sua vez faziam malabarismos para equilibrar a atitude "eu sou muito homem, não ligo a essas picuinhices" perante os amigos com a necessidade de agradar para não serem trucidados ... e lá iam comprar as flores queixando-se "tem de ser, senão fico de castigo".
- Ou seja, o Dia dos Namorados começou a ganhar o poder de transformar qualquer mulher senhora de si no protótipo da Mulher Chata, Peganhenta, Carente e Chantagista, e qualquer homem num bruto ("eu não ligo a essas piroseiras") ou num cordeirinho ("que vida a minha, comprar flores sem me apetecer...chata de mulher, se um dia eu abro a pestana") ou em mais um no meio da carneirada, caso fosse genuinamente romântico (ele todo contente com o bouquet, e os machões de serviço "lá vai outro desgraçado com as algemas nos pulsos").
- As estratégias de contra-Dia-dos Namorados, vulgo "Dia dos Encalhados" ou "jantares de solteiras que não querem saber pois são muito independentes mas no fundo estão mortinhas por se apaixonar", tudo isso numa vibe " Raposa que não foi às uvas".
- O clima de "tanto faz estar genuinamente apaixonado e envolvido como a fazer a parte, porque é tudo posto no mesmo saco".
- Os mitos "Véspera do Dia dos Namorados é bom para arranjar par temporário porque anda tudo aflitinho para não estar sozinho num dia tão simbólico".
- A tonteria de não se poder jantar fora nessa data sem ser assaltado por coraçõezinhos, cupidinhos, velinhas e música ambiente com sussurros e saxofones, de não se poder sair como casal sem a etiqueta "olhós namorados, primos e casados" enfim, de uma celebração íntima se tornar formatada, por muito boa vontade que haja. Nesse dia toda a gente tem de estar bem disposta, apaixonada e feliz, mesmo que calhe a meio da semana de trabalho e não haja paciência para o modo flirt, sedutor ou romântico ou que andem arrenegados e voltem a estar no dia a seguir porque as causas do problema são sérias e continuam presentes.
- E já não falo nas manifestações Facebookianas desesperadas que não se tratam de demonstrar amor ao parceiro, mas de colocar o carimbo "este é meu e ninguém tira" para todo o mundo ver...
Sou a maior defensora da tradição mas tudo o que "é suposto só porque sim" ou o
"sentir-me romântica de propósito" tem o condão de me enervar. O Dia dos Namorados não é necessariamente piroso, mas por força do número, e de tantas mentes pirosas que adoram frases feitas, demonstrações hipócritas, expor o amor para "inglês ver" mesmo quando o amor não é dos grandes, acabou por se tornar algo pequeno burguês e kitsch demais para meu gosto.
Não me levem a mal, acho que o dia tem as suas vantagens:
- Um casal realmente apaixonado que se zangou e tem aí uma óptima desculpa para fazer as pazes.
- Um casal que está apaixonado mas ainda não se declarou: enviar um "Feliz Dia de S.Valentim" é um excelente pretexto para chamar "as coisas pelos nomes" informalmente e sem muita pressão.
Porém, acredito acima de tudo no lugar comum que reza " Dia dos Namorados é quando o casal quiser". Em última análise, creio que celebrar o dia em que se conheceram ou o aniversário de namoro/casamento é muito mais romântico, mas isso sou eu. É bonito honrar datas especiais, porém os gestos espontâneos têm outro impacto. Faço questão de ser bem tratada; não sendo dada a romantismos estereotipados gosto muito de trocar presentes. Penso que uma mulher que valorize certos gestos, ou um homem que seja genuinamente romântico, devem cultivar esses mimos na relação a tempo inteiro, para que as "datas especiais" não se tornem uma farsa.
Infelizmente, para muitos casais é mesmo. E para quem como eu vê o natural, mas divino acto de se apaixonar (ou o desafio que é construir um relacionamento com pés e cabeça) como algo especial, íntimo e único, misturar coisas tão pessoais no caldeirão das pressões, obrigações, manipulações e foleiradas é no mínimo, desvirtuar o amor. Por mais que se assuma, sem problemas, que o Cupido é por excelência pindérico e faz as pessoas fazer coisas um bocado tontas. Como a pimenta, a foleirada que dá gosto à vida precisa de ser doseada. E tal como o amor, não se pode forçar ... ou perde a graça toda.