Talvez por ainda não me ter habituado à cozinha desta casa há algum tempo que não fazia uma maratona culinária, coisa que antigamente me divertia bastante. Ou quiçá o motivo tenha sido a febre recente com a cozinha gourmet, de fusão, de autor, com os chefs elevados a superstars (nada contra o reconhecimento dos bons profissionais, mas parece-me uma hype exagerada e pretensiosa e não consigo conter a minha aversão a modismos tontos). O mais curioso é que se tivesse seguido o entusiasmo do pai pelos meus dotes culinários, a despeito das ambições académicas que tinha para mim (e contra a senhora mãe que se arrepiava só com a ideia de ter a filha dela todo o santo dia trancada entre panelas e tachos) talvez eu própria fosse agora uma patroa chef de sucesso (imaginam como seria o Imperatriz? Eu não). Na minha família as mulheres sempre cozinharam lindamente, e os homens que se dedicavam à caça sabiam fazer estupendos petiscos. De modo que já em pequena adorava, literalmente, meter colherada e fazer experiências, mais do que comer - nota bene, eu era a pastelona. O pior foi que a avó, generala lá de casa (e que fazia coisas fabulosas como ovos verdes ou migas doces) não me deixava invadir-lhe o espaço sem mais aquelas: não podia ser aquele tacho, tinha de ser antes aquela caçarola, ai que isso não é assim que se faz, cuidado com a lata de atum que ainda no outro dia cortei um dedo que foi o fim do mundo nesta casa, ai ai ai que a Sissi
queima-se, etc, e eu - que me parecia muito com ela, logo conhecia-lhe as manhas - percebi logo que assim não ia aprender coisíssima nenhuma. Mas nunca fui menina de desistir e decidi trocar-lhe as voltas: como gostava de cozinha oriental, comprei uns quantos livros e lancei-me à aventura. E a avó, coitadinha, que nunca tinha cozinhado tal coisa, ficou desarmada: não me podia dizer como empregar o molho de soja, ou que não usasse um wok mas uma panela, muito menos para que lado se enrolava o sushi. Acabou por dar a mão à palmatória, foi um sucesso lá em casa e mais tarde, tive mesmo ocasião de conviver de perto com uma família de chefs asiáticos que até me ensinaram a fazer gelado frito, ou os segredos para o camarão sair inteirinho e perfeito. Daí para a culinária africana e brasileira (a madrinha, que viveu em S. Tomé, acabou por me dar a receita de um kalilu que me assombrou a infância) italiana (tinha de ser) doces, saladas, canapés, sopas, cremes e por aí fora foi um ápice, sem esquecer as boas receitas portuguesas que ainda me esforço por absorver - com alguma preguiça, já que normalmente, a cara mamã trata disso, e de que maneira! Encantava-me a ideia de comunicar emoções através da comida e de testar os efeitos das ervas aromáticas tradicionais (esta dispõe bem as pessoas, aquela convida ao amor, etc). Se cozinhar enervada, nada me sai bem. Tenho um olfacto apurado e não preciso de provar para saber quando um prato está perfeito, mas se provar distingo uma série de nuances. Por isso, sou muito crítica quando o assunto são os restaurantes da moda: gosto de conhecer tudo caso me cheire (ou saiba) a pantominice, muita apresentação mas pouca arte, dou o meu dinheiro por mal empregue. Depois de uma sessão de cozinha à séria, sinto-me exausta, dorida das pernas, mas descontraída. Não imagino o que seria fazer o mesmo todos os dias: acho que cada um é para o que nasce, e certas coisas são melhores quando as fazemos em pequena escala, ou só por diversão...