Eu não acredito cegamente no Destino, no Fado, nas Moiras, nas Parcas ou no que lhe queiram chamar. Sempre me quis parecer que os Deuses traçam o nosso caminho até certo ponto, no estilo teste de múltipla escolha, como aqueles livrinhos de terror giríssimos em que a sorte do herói dependia de optarmos pela alínea a, b ou c. Acho que há etapas que temos forçosamente de passar, locais que estão marcados no nosso percurso, pessoas que temos de amar ou enfrentar, mas o resultado depende inteiramente de variáveis que estão na nossa mão, como a nossa vontade ou performance. E mais uma vez volto a Mestre Maquiavel: há que saber jogar com a Virtù, que depende de nós, e com a Fortuna, que é caprichosa. Ousar ou calcular perante as circunstâncias que só ao acaso, ou à vontade divina, se devem. Muitas boas decisões (e algumas péssimas) advêm de duas atitudes: a de certa displicência tranquila, de quem não sabendo que era impossível, foi lá e fez e uma veneta que se traduz sensivelmente por "eu vou lá e parto aquela porcaria toda, quem manda aqui sou eu". Esta última "onda que sobe por nós acima e desce por nós abaixo" é um super-poder que havia de ser vendido nas farmácias. Ia ser um sucesso comercial, estou certa.
Gosto de pessoas que levam sempre a sua avante. E que quando não levam é porque mudaram de estratégia (agora não me apetece, mais tarde trato disso, e verão!) porque se desinteressaram do objectivo ou porque arranjaram melhores coisas para fazer. Se o assunto é sério, é necessário ser-se caprichoso . Não arredar dali. Não desistir.
Depois, pessoas vencedoras não desperdiçam desejos por aí. Há que saber claramente o que se procura, mas não procurar demasiadas coisas e ir contando as bênçãos em vez de maldizer a sorte. Alinhar a vontade (Virtù) com a Fortuna.
Procurar aquilo que não é nosso, manter desejos velhos e bolorentos só porque sim quando o Universo nos diz constantemente o contrário é uma péssima ideia. Gosto muito de Maquiavel, mas acredito mais na sabedoria da avó, porque as avós não mentem (e concordam com Maquiavel muitas vezes, por estranho que pareça).
E a avó dizia "o que tem de ser nosso à mão nos vem parar, ninguém nos tira, nem que caia céu e terra ". Então, para quê a preocupação? O destino pode não estar escrito, mas há partes dele que são feitas, traçadas, talhadas e ligadas no Céu. Podemos dar as voltas que quisermos, mas nunca deixarão de ser nossas por mais granadas que caiam, por mais abismos que se cavem. É uma questão de serenidade. De ir dançando conforme a música, de preferência com o sorriso malvado da praxe, de quem já sabe como o filme vai terminar por muitas voltas que se dêem ao enredo. Com a tal displicência de quem se está marimbando para as dificuldades invisíveis e com a atitude de quem manda ali e vai partir aquilo tudo. O que nos pertence, como dizem no país irmão, ninguém tasca nem tira. Então descontraiam-se, arranjem uma cadeirinha e relaxem. Tried and true.