
De uma maneira muito íntima e pessoal, que vale o que vale, atrevo-me a dizer o que já tenho mencionado aqui e ali: Portugal, se teve estilo em tempos, um certo panache conferido pela aura de portuguesinhos valentes à espadeirada ao mouro e a fazer negaças a Castela e companhia (bons tempos, brava gente) pela imponência do Império (no tempo do Senhor D. Manuel I, verdadeiro árbitro das elegâncias e uma estampa de homem) ou, mais recentemente, nos anos em que espiões, cabeças coroadas e a crème de la crème assentavam arraiais por Lisboa, Cascais e Estoril, hoje, como País, como povo, Portugal tem "A MANIA" - termo querido do português -e pouco mais. Estivemos lá perto, mas não estabelecemos a nossa marca como os italianos, britânicos ou franceses . Talvez pelo eterno complexo de parentes pobres, talvez pela fraca veia ou dimensão das classes dominantes, que não souberam educar o povo na cultura das coisas belas. E perdoem-me, meus caros, o português é um povo maniento. Gosta da lata polida a imitar prata, do arrivismo, do jeitinho, de engraxar com uma faca atrás das costas, do ressabiamento, do show-off, do inglês ver. É demasiado deixa andar para se polir em profundidade: quer tudo para ontem, uma engraxadela basta; e ao contrário dos italianos (desculpem se puxo a brasa à minha sardinha) que podem viver rodeados de ruínas a cair aos bocados e não tomar conta delas, mas mal ou bem os testemunhos do passado bonito são tantos que não têm outro remédio senão absorver a ideia da sprezzatura ou da bella figura, no nosso caso um bonito castelo aqui outro dali a 100 quilómetros não chegaram para apurar o instinto, o gosto e a vista. Em resumo, Portugal tem mania, tem boas intenções, tem peneiras, tem matéria prima, mas
falta-lhe disciplina, rasgo e impulso. Ainda estou à espera de ver o estilo português. Lá chegaremos.
Mas por ora, poucas coisas exprimem tanto o complexo de inferioridade do português, ou o status postiço e a martelo, como a mania de ser DOUTOR!.
Se repararem, verão que ao mencionar-se o augusto título o visado se ergue ligeiramente, num reflexo mui Acaciano e mui emproado. E vindo eu da cidade dos ditos, em que Deus nos livre que uma pessoa não seja tratada por doutora (ou licenciada, ou mestre, e ai de quem falhe no título) mesmo que não seja doutorada ou engenheiro (a), que enfim, quanto a isso não há como chamar doutor a um engenheiro, sei do que falo. Quer-me mesmo parecer - desculpem lá o modo desmancha prazeres - que com a minha cidade elevada a Património da Humanidade, pior ficaremos. Tem a sua graça entrar num evento cá do burgo onde todos são invariavelmente, ou fazem por ser, doutores, e ver como se repenicam ao anunciar - à falta de títulos mais pomposos, que se aterrar aqui um Embaixador, Bispo, Conde ou mesmo Secretário de Estado se calhar cai tudo redondo - o Sr. Dr. fulano de tal, e se for mesmo doutorado ai Jesus, é o cúmulo, ou a tratar-se por Sr. Dr. Fulano uns aos outros com tanta mesura que dá vontade de rir.
Em Coimbra será pior (ou levado mais a sério) mas é inegável que ser doutor é a ambição, o êxtase, o sonho do português. Assim que o país se viu mais vá, moderno e desenvolvido, qual foi a prioridade na educação? Não criar uma nação produtiva, forte, capaz, com uma sólida instrução para a vida prática - mas facilitar o acesso universal ao almejado Dr. atrás do nome. Criar doutores que superavam as encomendas - não fosse alguém ofender-se - sem mesmo arranjar um filtro vocacional para ver quem tinha, de facto, cultura e saber estar (que as notas não são tudo, e em algumas "escolas superiores" nem notas se exigem) para luzir o título. E como cinco anos era muito trabalho para uma coisa tão essencial para a sobrevivência como ser doutor, aderiu-se a Bolonha porque senão podia vir outra vez o Terramoto. Era certo que tínhamos o sismo, a revolução e a peste se Portugal não facilitasse aos portugueses uma "licenciatura" expresso. Quem aproveitou o negócio encontrou um filão inesgotável.
Se noutros tempos se dizia a graça "foge, cão, que te fazem barão - para onde, se me fazem visconde?" - hoje é o dótor, o horrendo dótor a martelo, a trabalhar na caixa do Continente porque não há postos chic que cheguem para tanto dótor junto, que merece o dito.
E o resultado são "doutores" burros como um urso, como se diz por cá; banalizou-se tanto o licenciado (que faz questão de ser doutor) o mestre (Mestre só Nosso Senhor Jesus Cristo e meia dúzia de iluminados) e o verdadeiro Doutor que ser tudo isto já não é garantia de se ser instruído em coisa nenhuma, quanto mais refinado ou educado, que isso vem de casa e a faculdade pouco pode fazer. As regras de conduta e de exigência - salvo alguns professores da velha guarda que ainda vão impondo respeito - aligeiraram-se de tal maneira que há quem se atreva a sentar-se perante os lentes de chinelas de praia. E os próprios "lentes", bem...digamos que eu, que sou uma pessoa respeitosa, preciso de mais do que um título académico para sentir verdadeiro respeito por alguém. E conhecendo o background, o pedigree e os actos de muito pantomineiro que vê no doutor um símbolo do seu alpinismo social, então podem crer que só lhe dou o "Dr:" entre dentes, para não ser malcriada.
Em jeito de detective, ou de graça, digo-vos mesmo que quanto maior o anel de curso, pior os antecedentes. E muitos andam por aí com uns cachuchos horrendos que mais parecem um anel de Bispo, proporcionais em tamanho à mania das grandezas e ao complexo de "carroceiro que se fez doutor".
Considerando a pouca selecção que é feita, o género de alunos que tem entrada franca e certas faunas, não sei mesmo se ter ensino superior é selo de alguma coisa ou exactamente o contrário, já que muito boa gente sai de lá mais pateta do que entrou, apenas com maiores ilusões de grandeza e pouquíssima noção do seu lugar.
Com duas licenciaturas e um mestrado a meio (tinha coisas mais urgentes a tratar e estou cada vez mais selectiva nos luxos intelectuais que me saem do bolso) embirro grandemente que me tratem por, vá, Dra. Sissi. Era só o que me faltava. Não sou doutorada, médica tão pouco. Mas num país sem meios termos, uma mulher ou é tratada por "tu" em público, ou por dótora. Maior favor me fazem se me tratarem como convém que uma senhora seja tratada - respeitosamente pelo nome, ou por menina, ou, em questões mais formais em que o estado civil não vem a propósito Sra. D., que é como eu trato as senhoras que merecem todo o respeito. Dispenso grandemente ser colocada no mesmo saco de dadas "dótoras" de primeira viagem. Mas isso dá muito trabalho, que descortinar títulos é coisa do tempo da outra senhora, não é?