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Saturday, January 4, 2014

Anna de Cleves: antes só...

Anna de Cleves, a quarta mulher de Henrique VIII, passou à História como a esposa feia, a "égua da Flandres" que foi rejeitada pelo monarca caprichoso. Os historiadores - e os seus contemporâneos - porém, concordam que a dama tinha, no mínimo, a reputação de rivalizar com as beldades elegíveis do seu tempo. Os retratos mostram-nos um rosto plácido (o nariz algo "batatudo" era a única falha que se lhe apontava)  uma cintura estreita e uma figura curvilínea. Se pusermos de parte os mitos, uma grande timidez, diferenças culturais e falta de química entre o casal parecem ter estado mais na origem do divórcio do que qualquer outra coisa.
 Mas no meio das suas desditas, Anna de Cleves (a segunda esposa de Henry a sofrer o estigma do divórcio) foi entre as seis rainhas, a mais feliz de todas...e tudo graças a um grande bom senso.
 O noivado, negociado à distância, realizou-se por razões políticas e religiosas: morta a sua Rainha preferida, Jane Seymor, em consequência do parto do seu único filho varão, Henry VIII achou-se na obrigação de casar com uma noiva de simpatias protestantes. Thomas Cromwell, Conde de Essex e principal ministro do Rei, incentivou-o a firmar a aliança com a Princesa alemã - e perderia a cabeça pela má escolha.

 No dia de Ano Novo de 1540, Anna chegou finalmente a Inglaterra. Um eterno romântico, Henrique - que já tinha chegado à meia idade e perdera a sua bela figura, mas continuava a ver-se como o jovem deslumbrante dos seus 20 anos - decidiu seguir a tradição cavalheiresca de surpreender a noiva. Afinal, tinha-se apaixonado à distância pelo seu retrato e com a imaginação romanesca que o caracterizava, calculou que ela o reconheceria imediatamente, que seria amor à primeira vista e iam viver felizes para sempre.
 Mas Anna nada sabia das tradições inglesas, além de ser tremendamente ingénua em questões amorosas. Ao ver um grupo de homens a aproximar-se e um grandalhão mascarado agarrá-la e beijá-la à força, desatou aos gritos... como convinha, afinal, a uma rapariga sensata do seu meio. A surpresa foi um desastre. Ferido no seu ego gigantesco, Henrique não perdoou a afronta; declarou logo "não gosto dela!".

Para piorar, Anna mal falava inglês, Henrique não falava alemão. Henrique apreciava as mulheres com sentido de estilo, que vestiam à francesa...e Anna usava os vestidos sóbrios como balandraus que eram moda na sua terra. Também não sabia música, nem sabia flirtar.

 A noite de núpcias foi igualmente um fracasso. Para começar, o Rei era teimoso e se tinha metido na cabeça não gostar da noiva, dificilmente daria o dito por não dito. Depois, já não tinha o vigor de outros tempos e a má disposição - associada a uma úlcera malcheirosa numa perna - não ajudava. Foi-se queixar, em termos muito desagradáveis, aos seus médicos. A julgar pela descrição, podemos imaginar que Anna, alta e voluptuosa, não faria o seu tipo: ele era conhecido por preferir as raparigas pequenas e esguias, como Anne Boleyn. Ele próprio não seria um Apolo, por essa altura, e a ignorância e inocência da noiva - que disse às suas damas julgar que um beijo de boa noite seria o suficiente para dar um herdeiro à Coroa - dificilmente contribuíam para que a união fosse um sucesso. Por esta altura, Henry já estaria interessado (como de costume) numa das damas de honor da Rainha, Catherine Howard.

 Ao fim de seis meses, Henry anulou o casamento - e Anna, aterrorizada pela fama do marido, não se opôs...o que, tendo em conta o carácter de um Rei que sabia ser generoso quando não o contrariavam, foi a melhor decisão possível. 

 Henry propôs-lhe então que ficasse a viver em Inglaterra como sua súbdita e sua " boa irmã" com precedência sobre todas as mulheres do Reino, exceptuando as suas filhas e a mulher com quem viesse a casar. Ofereceu-lhe uma renda impressionante, vestidos, jóias e duas residências magníficas mantidas à custa da Fazenda Real. E Anna, mulher de boa natureza e dotada da arte de saber viver, aceitou contente, embora decerto ferida na sua vaidade - seria melhor ficar naquela que já considerava a sua casa do que voltar para a austera Cleves e sujeitar-se à autoridade do irmão, a um novo casamento político e a mais reviravoltas, sem poder sobre o próprio destino.

Era uma pena deixar de ser Rainha - mas conservava um alto estatuto e independência, coisa rara nas mulheres do seu tempo. Não só escapou ilesa a um casamento suicida como conseguiu o feito de ter excelentes relações com a sua substituta, a nova (e breve) Rainha, e foi uma boa influência nas duas princesas, Mary e Elizabeth, que gostavam muito dela. À medida que aprendia inglês e se adaptava à sua condição de membro da Família Real, a sua vivacidade natural veio à superfície, e ela e o Rei cimentaram uma grande amizade. 

Curiosamente, Anna não voltou a casar, embora as razões não sejam claras, já que o acordo não a impedia oficialmente de o fazer. Talvez a experiência tivesse sido traumatizante. Talvez não quisesse dar um passo para trás, já que mal ou bem, tinha sido casada com o Rei de Inglaterra. Sabe-se que a dada altura, após a queda de Catherine Howard, poderá ter alimentado esperanças de que o Rei a tomasse de volta, mas pessoalmente duvido. 

 Após escapar a um matrimónio relâmpago com o Rei Barba Azul, creio que Anna preferiu uma vida discreta, sendo dona do próprio nariz. A sorte grande só sai uma vez, e poderia sofrer a sina de uma segunda edição. Antes só do que mal acompanhada, lá diz o povo.










3 comments:

Ariana said...

Este post foi um miminho no meu dia. Provavelmente, uma vez que não estou dentro desta área, estarei a dizer uma grande patetice, mas acho que relatas estes pedaços de História de uma forma muito romântica, muito própria, imparcial mas ao mesmo tempo muito pessoal. E depois dou por mim a dar uma espreitadela aos post's associados e a deliciar-me como se estivesse a ler um romance. Obrigada! ;)

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Ariana, por este comentário que foi "um miminho do meu dia".

Um grande beijinho.

Portuguesinha said...

Uma mulher desde que financeiramente independente e com algum poder e respeito precisa de um homem para quê, não é mesmo? Antes só, sobria, dedicada aos seus interesses do que submissa às vontades alheias e à má sorte de não poder fazer as próprias escolhas.

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