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Friday, January 31, 2014

B-I-T-C-H. No mau sentido.


Como por estes dias se celebrou o Holocaust Remembrance Day,  tive acesso a uma versão do documentário realizado por Hitchcock sobre a libertação dos campos e dei por mim a reler alguma da minha bibliografia sobre o assunto, acompanhando também outros filmes e peças mais ou menos informativas que invariavelmente aparecem nestas ocasiões.

 É que por muito que se leia ou se estude, nunca se abarcará a dimensão da tragédia. São demasiadas histórias, todas terríveis mas com lampejos de dignidade, esperança, ternura e até de humor, porque a ironia é uma grande tábua de salvação mesmo nas piores circunstâncias.

 E neste exercício lembrei-me que na adolescência, as entrevistas a protagonistas e sobreviventes foram um sério contributo para que me passasse pela cabeça ser jornalista. Descobrir testemunhos daqueles, relatos tão extraordinários que muita gente - com boas ou más intenções e menos ou mais lucidez- se questiona se terá sido verdade ou como é possível que tenha acontecido, que o Inferno tivesse passado pela Terra. Ter sido filmado, fotografado, documentado até à exaustão ou transformado em Museu, aparentemente não chega. Há sempre a tentação de pensar que talvez não tivesse sido bem assim. Porque é  desconfortável conformar-se com o facto de tal coisa se ter passado.

Mas eu não me atreveria a escrever sobre o Holocausto: é demasiado avassalador e entra-se em discussões que não desejo começar. Creio mesmo que é só através dos heróis e dos vilões que se consegue perceber alguma coisa ou tornar os acontecimentos tangíveis. E as histórias das mulheres no Holocausto, vilãs, heroínas ou sobreviventes, sempre me fascinaram até porque não estavam, até há pouco tempo, tão bem documentadas como isso. Muitos episódios horrendos, pungentes e humilhantes só mais recentemente vieram a público, por compreensível vergonha das mulheres que se viram atacadas na sua dignidade e intimidade. É inevitável pensar "o que faria eu naquela situação?".

Ora, uma personagem que me marcou, verdadeira matéria para pesadelos, foi Irma Grese.



A menina, que ganhou alcunhas tão lisonjeiras como "a cadela de Belsen", "o Anjo Louro de Auschwitz", "a Bela Besta" e "a Hiena de Belsen" era tão boa ou tão má que o próprio pai, membro do Partido Nazi, a pôs fora de casa. Aos catorze anos deixou a escola por pouco aproveitamento, bullying dos colegas ( durante o seu julgamento, a irmã relatou que Irma era a primeira a esconder-se se estalava um desacato) e por se encontrar obcecada, contra a vontade paterna, com as suas actividades "patrióticas"  na Bund Deutscher Mädel (Liga das Raparigas Alemãs). Tentou várias carreiras, incluindo a de enfermeira, sem grande sucesso. Sonhava ser actriz de cinema, mas em 1942 foi colocada como guarda no Campo de Concentração de Ravensbrück - e no final de 1943 já era a segunda mulher mais importante em Auschwitz, tendo debaixo da sua bota - literalmente - cerca de 30 mil desventuradas.

  Os relatos das suas atrocidades (espancamentos até à morte, atiçar cães esfomeados contra prisioneiros, execuções sumárias, só para nomear algumas) e desgovernos amorosos com homens de todas as categorias nos campos são imensos; conta-se que bastava saber-se que ela estava presente para o terror se instalar. A carta de uma ex prisioneira quando Irma já estava encarcerada, depois da libertação, explica perfeitamente o terror e ódio que inspirava. 

  Mas talvez o maior toque de requinte sádico fosse a sua obsessão por modas e elegâncias, citada em numerosos testemunhos, nomeadamente pela antiga prisioneira e escritora húngara Olga Lengyel. A "Bela Besta" não só fazia questão de andar impecavelmente arranjada, com botas bem engraxadas que usava para espancar os infelizes sob o seu jugo, como abusava do perfume - mais uma forma de desmoralizar as prisioneiras imundas, esfarrapadas e cobertas de piolhos. Mais do que isso, era a primeira a escolher o saque (não há outro nome) das malas roubadas às prisioneiras, e à custa disso compunha um belíssimo guarda roupa. Tinha mesmo uma camisola de caxemira branca que usava muitas vezes e que as próprias detidas não podiam negar que "lhe ficava muito bem" antes de o omnipresente chicote as fustigar sem dó. 

  O sentido de estilo da cruel ladra de roupa alheia não lhe valeu de muito, porém: aos 22 anos foi enforcada por crimes contra a Humanidade. Não se arrependeu minimamente, e foi para o patíbulo com o cabelo cuidadosamente encaracolado: na véspera, tinha arranjado papelotes feitos com trapos. Good riddance, fraulein Grese.




  

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