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Sunday, January 12, 2014

Saber desistir é uma virtude. Sim, é!



A ideia "só os falhados desistem" está muito enraizada na cultura ocidental e é usada a esmo, como muitas formas de pensar radicais, branco ou preto, tudo ou nada. Arrisco-me a dizer que muitos de nós foram educados para ter uma "mentalidade vencedora" - é preciso insistir, é preciso persistência, é preciso bater a 1000 portas para que uma se abra, etc. Tudo muito lindo.

Eu própria sou uma pessoa teimosa - ou antes, estrategicamente teimosa. Tenho ideias muito firmes, sei o que quero, sou capaz de bater o pé para lá chegar e, como dizia a minha avozinha "quando mete uma ideia na cabeça, nem o diabo lhe dá volta". E sim, fui treinada para não desistir. Para me sacrificar e ignorar o desconforto, as cedências e os esforços desagradáveis em prol do objectivo em mira - o que geralmente resulta. "It´s annoying how I always get my way" é uma frase que se aplicaria lindamente. 

No entanto, às vezes é necessário rever qual é "your way"; se o objectivo é tangível, possível, exequível, saudável ou se precisa de ser reajustado. Não só a estratégia para o conseguir, mas o alvo em si.  É algo que qualquer bom gestor sabe. Quando algo não resulta, não funciona, é fonte de frustrações, de perdas e de aborrecimentos há que traçar a linha entre persistência e estupidez. Ser teimoso como um burro ou pig headed, como dizem os ingleses é, em certos casos, ser irracional.

É que às vezes, só os falhados persistem. Ou como dizia Einstein,  *desculpem lá a tradução livre*  "maluqueira é fazer o mesmo vezes sem conta e esperar um resultado diferente". 

Para evitar isto é preciso não se ser demasiado orgulhoso para perceber que se tomou uma decisão menos inteligente, que as estratégias adoptadas não eram lá muito eficazes, que o prémio em causa não está ao alcance (ou que até não seria conveniente) que às vezes não é não e pronto, e passar adiante para novas oportunidades.

 Se esbarramos numa parede blindada e não temos instrumentos para a deitar abaixo, não vale mais seguir outro caminho? Nem sempre água mole em pedra dura tanto dá até que fura - é muito mais frequente a água fluir para contornar os obstáculos e encontrar outra via. Sejam como a água, disse Bruce Lee.


Lá porque se leu num mapa que o caminho era aquele, se gastou não sei quanto de tempo e gasolina por montes e vales para ir a certo sítio e ao chegar lá, se encontra um precipício...não se vai em frente só por teimosia, ou vai? 


Mas é o que muita gente faz. Fica presa aos mesmos falhanços porque embirrou que quer ou merece certa coisa, certa pessoa, certa meta, porque já investiu não sei quanto,etc. 

Exemplos disso são:

- Pessoas que andam anos e anos e mais anos para tirar um certo curso. Não fazem mais nada da vida, perdem semestre após semestre, torram propinas e mais propinas vêem a vida passar e nunca mais se despacham, mas são incapazes de reconhecer a má opção e mudar, ou passar a outra actividade qualquer. Falta-lhes humildade e cabecinha para discernir que se calhar não são talhados para aquilo, mesmo que até tenham jeito para a área. Não percebem que quem não aguenta o calor, tem de sair da cozinha.

- Pessoas que se apaixonam unilateralmente por quem não lhes liga nenhuma. Levam tampa atrás de tampa (primeiro com delicadeza, depois de forma óbvia, depois ao pontapé se for preciso) fazem de ombro, seguem o alvo das suas "afeições" (ou obsessão) como cachorrinhos, sofrem as piores humilhações mas ainda acham que sim. Não importa se a pessoa gosta de outra, é inatingível, está fora do alcance, não joga no mesmo campeonato, é comprometida, casada e pai de filhos. Não desistem nem que lhes digam "eu sou gay!" (ou se for um gay teimoso, não desiste nem que lhe digam "eu não sou gay"...percebem a ideia). Entendem que devem "lutar por esse amor" que nunca foi deles. Que a persistência é a chave do sucesso. E ficam zangados, furiosos com o alvo das suas afeições, como se tivessem sido enganados. 

- Aspirantes a artistas que enfiaram na ideia que hão-de ser famosos, por muito que lhes digam na cara que não têm altura para ser modelos, voz para ser cantores, formação ou talento para representar. E na mesma linha, artistas que tiveram sucesso no passado mas cujas oportunidades passaram, e insistem em não ter outra profissão e deixar o palco para as horas vagas. A incapacidade de adaptação é realmente uma coisa triste.

- Negociantes que continuam a fazer o que sempre fizeram, por muito que o mercado mude. Querem continuar a vender leite engarrafado por muito que os leiteiros tenham deixado de distribuir a mercadoria de porta em porta. Porque já investiram não sei quantos euros há anos, e a culpa é do governo, e dos mercados, e sempre dos outros. Apegar-se afectivamente a um negócio nunca é bom. Há que saber desistir de um mau investimento, reconhecê-lo como tal e passar adiante. Não é nada pessoal. É apenas negócio. 

- E em geral, aplicar os mesmos métodos, mesmo os que não resultaram, para salvar/recompor uma carreira, uma relação, ou seja o que for. 

Investir mais para salvar um investimento que nunca trouxe senão chatices não é de todo boa ideia. Se calhar, às vezes é mesmo preciso pôr a mão na consciência, considerar " essa não foi a mais brilhante das minhas escolhas" libertar-se, ter noção. Jesus, como me irrita gente obtusa e cabeçuda.


2 comments:

Diego Oliveira said...

Muito bom texto. Veio na hora certa para mim. Muito obrigado e, meus parabéns!

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada :)

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