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Wednesday, February 19, 2014

Apedrejem-me lá por isto, mas...

                                        

...em certos casos, ser ensaísta não se me afigura mais útil ou mais "profundo" que a nobre profissão, salvo seja, de socialite. Vacuidade por vacuidade, a segunda é mais honesta, tangível e despretensiosa. 

Isto ocorreu-me ao tentar ver um episódio de uma série que aprecio muito, mas desta feita sobre um livro super existencialista que-toda-a-gente-lê-porque-é-suposto-e-sai-nos-exames-mas-tem-vergonha-de-dizer-que-detestou (ou pelo menos, que não entende tanta histeria à volta da veneranda obra).

Vi o episódio, ou tentei ver - na tentativa de mudar a minha opinião, confesso. Tinha de haver algo de transcendente que me tivesse escapado naquela história de um rapaz que chega a uma terriola, diz meia dúzia de coisitas sobre o sentido da vida e da morte e com isso revoluciona tudo, põe toda a gente maluquinha: uns a matar, outros a morrer, outros a ver se morrem enquanto se interrogam furiosamente porquê. 

 Mas desenganei-me rapidamente porque os iluminadíssimos convidados, em vez de me esclarecer, se puseram com frases bonitas e assaz inúteis do estilo "a personagem não toca a música da partitura, toca a música da alma". Coisa subjectiva, no mínimo. E depois, zás: põem-se a dizer que tudo aquilo é tão subjectivo, ora muito obrigada. Cá para mim também não perceberam nada, mas deleitam-se com a oportunidade de conjecturar do alto do seu pedestal - olhem para mim, falo de uma forma que só os eleitos percebem. Pior do que o subjectivo autor, que ao menos produziu alguma coisa, só o ensaísta que faz vida de analisar tais sumidades.

Tenho para mim que as mentes realmente brilhantes possuem poder de síntese e são capazes de se explicar numa linguagem clara, incisiva, acessível à maioria - não precisam de se esconder atrás de palavras caras. Quem usa de rococós, de floreados, tem muito pouco a dizer.

Voltando às socialites, conheço algumas senhoras dessas com mais espírito, mais capacidade de alinhavar uma frase e certamente mais sentido prático do que muitos supostos intelectuais que se dedicam a fingir que pensam, que escrevem, que reflectem sobre as "visceralidades da alma". 

 E se calhar essas senhoras tão criticadas, as da velha guarda pelo menos, ainda fazem caridade - o que sempre aproveita mais a alguém do que intermináveis sermões e dissertações, carregadas de forma, pejadas de figuras de estilo e vazias de conteúdo que sirva para alguma coisa, mas tudo tão elaborado que ninguém se atreve a dizer " que grande parvoíce!" - ou como estou a imaginar que Eça de Queiroz diria, "o senhor é um asno! uma besta!" sem ficar na fama de mentecapto.

 Superficialidade por superficialidade, antes a que está à vista e se limita aos arrebiques, ao socializar de forma inofensiva com gente remotamente apresentável e ao não fazer descaradamente nenhum. Os pseudo intelectuais, os pseudo poetas, os pseudo estudiosos de coisa nenhuma fazem o mesmo, mas com roupas mais feias, bebidas mais reles e ar de mártires super politizados. De todos os snobismos, o da cultura é de facto o mais feio. 

2 comments:

isa said...

Exactamente a minha opinião. "Aparição", certo?

Imperatriz Sissi said...

Isa, apanhou-me :D

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