Recomenda-se:

Netscope

Thursday, February 20, 2014

O casal perfeito‏


Lá em casa há discórdia de cada vez que Sex and the City é reposto, ou se fala em novo filme  - dada a automática desaprovação de um homem da família que acha a série uma depravação danada pontuada por muitos sapatos e farrapos que só põe as mulheres a pensar em disparates, a querer ser como elas e a viver em Nova Iorque (ou pior, a fingir que Lisboa é Nova Iorque) contraposta por esta  firme argumentação  da minha parte: 

a) a série é muitíssimo bem escrita/produzida, a fotografia é óptima e o figurino não se fala; um clássico, em suma.

b) embora espelhe algumas situações da vida real, é preciso ser muito desmiolada para cair no exercício deprimente de  levar aquilo a sério;

c) mau exemplo, mau exemplo é a falhada, bêbeda, galdéria e reconchuda Bridget Jones (se aquilo representa as mulheres, renego o meu género) ou a insuportável Anatomia de Grey, em que supostos profissionais de saúde perdem o tempo que deviam gastar a salvar vidas embrulhados uns com os outros no armário das vassouras; além de não se poder apreciar roupas porque andam todos de bata (quando a trazem vestida, vá) nunca vi uma fábrica de citações ordinarecas para raparigas atiradiças e desesperadas tão grande como Anatomia de Grey. Sem ofensa a quem gosta, a verdade é não conheço uma única rapariga carente e necessitada que não adore tal coisa. Ao menos Sex and the City é mais honesto.

d) Se  portuguesas com pouco mundo entenderam que por causa de Sex and the City haviam de ser muito "urbanas" e fazer "brunch" e comer maccarons, bom...a televisão americana não tem culpa da falta de sofisticação dos outros, não é?

Claro que há a velha questão, inevitável e assaz pirosa, de se pensar "eu sou como a Carrie" ou "eu queria ser como a Samantha", etc, porque como é óbvio as personagens estão escritas para terem aspectos com que todas as mulheres se identificam. 

Se quiser fazer esse exercício parvo, posso dizer que sou cínica/céptica/sarcástica como a Miranda, tenho a confiança da Samantha (e não me importava de ter uma amiga tão forte como ela, porque ser sempre o rochedo do grupo é muito cansativo) as questões de moda da Carrie e em tudo o resto, Charlotte é a minha preferida.
 

É a mais elegante, a mais refinada, uma rapariga tradicional, "das Regras"; e também é um bocadinho elitista, sem problemas em reconhecer os seus "critérios de admissão". Por isso sempre me entristeceu que ela se tivesse de conformar com outro final que não o conto de fadas que tinha idealizado. 

Torci para que o casamento com o príncipe perfeito, Trey, funcionasse: porque os casais bonitos, mesmo ficcionais, são uma prova da harmonia e beleza do universo. Como ela dizia, "o meu casamento é como uma Fendi falsa" - perfeito por fora, disfuncional por dentro. Trey tinha problemas no quarto e recusava-se a tratá-los ou admiti-los -  esperando mesmo que ela se resignasse a uma vida privada do amor conjugal "há tanto entre nós para além disso", dizia o marido perfeito, mas incompleto. O problema era fácil de resolver, mas ele não quis. Escolheu a saída fácil e ela teve de procurar a felicidade a que tinha direito em moldes menos...picture perfect.

Esse final sempre me incomodou, confesso: se Carrie conseguiu consertar Big, Charlotte tinha o mesmo direito. Quando se está tão perto da perfeição, arriscar tudo por causa de fraquezas que tinham solução, por questões que não valem nada,  é devastador. Ao menos na ficção, podiam criar finais felizes para casais lindos. Era o mínimo.

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...