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Tuesday, March 4, 2014

Condessa de Gencé ensina: para as desesperadas.


"A caça ao marido, por parte da menina casadoira ou de sua mãe, é tão antipática como a caça ao dote por parte do homem (...).  As mães (...) devem dar às raparigas a maior soma possível de conhecimentos (...) que lhes imprimam individualidade, que lhes mostre quanto é humilhante a caça ao marido. Muitas e muitas mães, ao verem um rapaz falar com a filha (...) procuram por todos os meios facilitar a aproximação, convidando-o ou fazendo-o convidar (...) para todos os passeios. Este facto é deplorável.
 A rapariga deve abster-se, quanto possível, de supor enamorados dos seus encantos todos aqueles que com ela se demorem conversando."

                              Condessa de Gencé, Manual de Civilidade e Etiqueta, 1895


É impressionante como uma obra escrita em finais do sec. XIX tem tanto a ensinar actualmente. É que - embora menos formalmente, pela natureza aberta das relações sociais dos nossos dias -  continua a ver-se muito do descrito acima: entre mulheres desesperadas para caçar um marido,tratando cada potencial pretendente com um servilismo absurdo, raparigas dispostas às maiores abjecções para "conquistar" um homem, nem que o rapaz nunca tenha pensado em tal e familiares sem noção que tentam fazer arranjinhos ou "armar laços" com qualquer pretexto esfarrapado, a pobre "Condessa" (nom de plume; tanto quanto sei, o título era postiço) que escreveu o "Guia das Raparigas Casadoiras" muitos fanicos teria se cá viesse outra vez. 

 O mais curioso é que a autora - que fez a primeira tradução de "Pinóquio" de italiano para francês - recomendava às mulheres a instrução formal e a independência financeira como "remédio" para a falta de decoro e de modéstia, defendendo contra as regras do tempo que uma rapariga não  devia ser educada "para casar" nem receber somente conhecimentos "superficiais e frívolos, que servirão apenas para iludir aquele que tiver a desgraça de lhes cair no laço". 

No seu entender, a mulher devia sê-lo "em toda a nobre acepção desta palavra: cônscia dos seus deveres e dos seus direitos, apta para ganhar a vida, apta para ser a companheira do homem (...)".
 "Não faças do homem o objectivo da tua vida: estuda, aprende, para seres independente, para poderes escolher, livremente, o homem que deve ser companheiro da tua vida".

  Neste aspecto a Senhora bem se enganou: muitas mulheres receberam, se não educação, porque isso vem de casa e nada a fazer, pelo menos instrução; conseguiram uma certa independência, trabalham, mas continuam tão desmioladas e com tanta falta de dignidade como quando não tinham tantas opções. São instruídas, mas continuam a, como dizia Eça de Queiroz, "encher a cachimónia" de romances melosos - de Pedro Chagas Freitas a Margarida Rebelo Pinto passando pelas 50 Shades of Grey, temos a prova evidente de que a instrução, sozinha, dá nisto.

 E estamos pior ainda pois à carência febril que sempre foi apontada às mulheres, se soma a liberdade de costumes e uma "igualdade" que não ajuda ninguém. Que candura a da escritora, achar que o remédio estava nos compêndios...


2 comments:

Olinda Melo said...

Uma mulher que ultrapassa as barreiras da mentalidade da época e vê mais longe, preconizando que a virtude reside na valorização individual e não na dependência.

E a tal 'igualdade' que alcançámos tem muito que se lhe diga, realmente.

Bj

Imperatriz Sissi said...

Olinda - falou como um livro aberto. Beijinho.

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